sexta-feira, 8 de abril de 2011
Autor do massacre em escola do Rio foi vítima de bullying na mesma escola
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
domingo, 8 de março de 2009
Jovem em liberdade condicional por ciberbullying

Estas imagens acabaram por ser transmitidas um pouco por todo o mundo através da Internet e TV, tornando o caso ainda mais mediático.
Durante o julgamento os pais da rapariga agredida acusaram as arguidas de terem planeado vídeo da agressão já com o intuito de o colocarem on-line.
Por outro lado a mãe de uma das acusadas afirmou que estas reagiram a provocações da vítima, que teria recorrido a uma rede social para as insultar.
Além da prisão condicional, Brittany Mayers vai ter de pagar uma multa de 1.752 dólares, cerca de 1300 euros.
terça-feira, 3 de março de 2009
Bullying, a violência entre iguais

Pode ser demasiado cruel o recreio da escola. Tem menos protecção para quem é posto de parte por alguns colegas. E está-se também mais exposto. João (nome fictício), 14 anos, sabia-o bem: tinha o nome inscrito no quadro de honra dos melhores alunos do 9.º ano, praticava desporto e jogava futsal como um craque, era popular e as miúdas achavam--no o máximo; talvez fosse sensível de mais para as pessoas que o rejeitavam. O próprio psicólogo que o acompanhava nas Oficinas de S. José, dos Salesianos, Lisboa, onde ele estudava, reparou num problema, recorda alguém que lhe era próximo: 'ele queria dar-se bem com toda a gente, mas não sabia gerir muito bem possíveis conflitos.' João estava a ser alvo de bullying – um termo que descreve a violência psicológica e física perpetrada pelos pares, colegas de escola, continuada no tempo e com o intuito de humilhar, rebaixar ou controlar, de alguma forma, alguém.
No seu caso, atacar a sua popularidade era uma forma de atingi-lo. Tudo terá começado quando, no início deste ano lectivo, João denunciou a um amigo um caso que se passava, à sua revelia, provocado por outros três colegas. Acontece que os quatro se juntaram e passaram a excluí-lo. Incompreendido, João desabafou com a sua directora de turma e com a família.
'Punham-no de parte e influenciavam outros a fazê-lo', relata a mesma pessoa. 'Sei que lhe mandaram mensagens de telemóvel a insultá-lo. Uma vez, que ele era para ir a uma festa – e que acabou por não ir – mandaram--lhe, depois, uma mensagem a dizer que ele não tinha ido porque ninguém gostava dele. Eram mensagens para o rebaixar, humilhar, para dizer que ele era um desgraçado que não tinha amigos. O que era completamente falso.'
Para os Salesianos, o processo educativo só se completa quando a família do aluno e a escola se envolvem em prol do mesmo. João passou a ser uma das 60 crianças a ter apoio psicológico da instituição. A mãe ficou em contacto estrito com a directora de turma, contou à Domingo, num encontro onde estivam presentes também o director pedagógico daquela instituição, a directora de turma e a coordenadora de ciclo.
João tinha maturidade. Falava roçando um ar de adulto. Mas tinha a mesma vontade de brincar e de se divertir de qualquer adolescente aos 14 anos. 'Ele era diferente da maioria dos casos de bullying onde, por norma, as pessoas fecham-se. Ele transmitia alegria, vontade de viver, tinha muitos projectos', conta a mãe. Um deles era fazer a viagem de finalistas do 9.º ano, a Paris; o outro, era figurar no 'quadro de excelência' da escola – que existe a par do 'quadro de valores', que distingue as boas pessoas –, para ter acesso à bolsa de estudo que iria aliviar a mãe e o avô da mensalidade. Quem o conhecia acredita que provir de uma condição económica diferente da maioria dos colegas e, por outro lado, ser exemplar na sua prestação escolar e desportiva, poderia torná-lo um alvo de bullying.
Todos os projectos de João ficaram suspensos. Sem que ninguém o previsse, o adolescente suicidou-se em Fevereiro, numa noite em casa – depois de se divertir a jogar ao ‘Guitar Hero’, na PlayStation3. A família acredita que o bullying despoletou o suicídio, a par da ansiedade por saber as notas do segundo período. A comunidade escolar prefere não associar estes factores ao trágico acontecimento, alegando que factores familiares somados a outros convergiram para este desfecho.
É sintomática a preocupação manifestada pelo procurador-geral da República ao constatar que só na região de Lisboa foram abertos 'cerca de 111 inquéritos', em 2008, relacionados com violência escolar – muitos contra a integridade física de professores e outros elementos escolares. Outros são furtos. Importa esclarecer que a grande maioria destes casos não são de bullying.
'Assistimos a um pico de bullying em 2002 e que, agora, está a baixar. Acontece que toda aquela indisciplina que se assiste nas escolas não é bullying, que não tem nada a ver com a relação do aluno com o professor, nem com a sala de aulas' – esclarece Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e docente na Faculdade de Motricidade Humana, Lisboa.
Nesta forma de agressão, muitas vezes silenciosa, a internet e os telemóveis revelam-se armas de bullying – é o fenómeno cyberbullying. Além de atingirem a vítima, muitos deles procuram uma – perversa – plateia. Sónia (nome fictício), hoje com 21 anos, viu a sua página pessoal no Hi5 (rede social) clonada. Há dois anos alguém copiou as suas fotos para criar um personagem. Seria 'um adolescente que estava farto da ex-namorada porque ela não o deixava em paz e fê-lo para ela perceber.' Ou seja, ele mantinha conversas apaixonadas com a rapariga das fotos. Sónia sentiu--se usada por alguém ter-se apropriado da sua identidade fotográfica para fins desconhecidos. Isso assustou-a.
O medo de não conhecer o agressor, como Sónia, pode ser tão grande como o de quem teme represálias por ter pedido ajuda a alguém. Pedro, 13 anos, reconhece que o melhor é ninguém associar o seu nome à sua imagem. No Restelo, Lisboa, a sua escola também é frequentada por alunos-filhos de classe média-alta. Os mais velhos dirigiam--se a ele com frequência obrigando-o a contar anedotas ao sabor de ‘calduços’.
'Sabe o que é um moche? Sabe o que são 20 miúdos em cima de si? Dói, pois dói' – conta Pedro. 'Sou conhecido em toda a escola como um ‘nerd’ (marrão). Nesta sociedade de hoje, nas crianças, ser bom aluno é mau. Para eles, o fixe é fumar e beber cerveja, aos 14 anos. Quem tem boas notas é um ‘nerd’'.
Apesar de importunado, o adolescente já se tinha habituado a ser alvo de troça. O culminar da tensão a que estava sujeito surge quando o mesmo grupo de sempre – desta vez eram dez – o aterrorizou. 'Ia ao McDonald’s ter com amigos quando me atacaram. Cinco deles é que participaram furtivamente, empurrando-me e dando-me ‘calduços’ e ‘carolos’'. Só o largaram, embora que por pouco tempo, quando ameaçou participar à escola. À saída do restaurante de fast-food, o grupo foi atrás dele, um deles empunhava um tabuleiro. 'Comecei a correr mas eles foram mais rápidos. Bateram-me e um deles deu-me, duas vezes, com o tabuleiro na cabeça. E caí na lama' – conta esmorecido. 'O mais humilhante é que filmaram e puseram no YouTube', denuncia.
Antes, Pedro falava com a mãe e rejeitava a sua intervenção. Desta vez, ligou-lhe logo. 'O meu pai foi à escola e fez um pouco de escândalo – era preciso – e desde esse dia dou um aperto de mão aos polícias da Escola Segura, de manhã, por protecção.' Pedro estava farto de fugir deles, nem podia chegar perto do campo de futebol. 'Ir aos balneários, isso é que não podia mesmo!'
Neste caso, a escola suspendeu o aluno que lhe deu com o tabuleiro por três dias; outros dois colegas com dois dias; e mais dois com um dia.
Explica o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, Armando Leandro, que 'compete às escolas actuar em consenso com os pais. Se porventura esse consenso não existir ou não puder ser resolvida a situação – e se a situação envolver perigo para o autor do bullying ou para quem o sofre –, deverá ser comunicado à Comissão de Protecção. O grau de perigo é determinado quando está em causa uma forte probabilidade de afectação da saúde, segurança, educação e desenvolvimento da criança'.
Mas os pais podem opor-se à intervenção da escola e da Comissão de Protecção (Lei 147/99). E, neste caso, o problema é tratado pelo tribunal.
Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde relativo aos comportamentos em crianças em idade escolar, com 13 anos, sobre o fenómeno de bullying, no ano lectivo de 2001/2002, em Portugal, 8,2% dos rapazes e 17% das raparigas declararam ter sido vítimas duas ou mais vezes, no último mês – o nosso País estava em décimo quarto num ranking mundial liderado pela Lituânia. Mais surpreendente: 15,8% dos rapazes e 27,3% das raparigas afirmaram terem sido autores de bullying, duas ou mais vezes, nos últimos meses – o que nos catapulta para o quarto país no ranking, liderado pelo mesmo.
No entanto, até mesmo antes da adolescência, há crianças a ‘provar’ desta violência transversal a classes sociais e a escolas. Ana Milene Magalhães, de 10 anos, tem uma afirmação convicta para responder às agressões dos colegas, no início de Fevereiro. 'Só volto à escola em Março, porque acho que me vou esquecer do que aconteceu.' A mãe, Rute Marina, não contesta. E a menina, hesitante, acaba por contar o seu tormento por voltar ao 5.º ano da Escola Básica Integrada, do Monte de Caparica, Almada – colada ao problemático bairro do Pica-pau Amarelo –, disposta a recuperar as cinco negativas.
Dentro da própria escola, Ana foi humilhada por quatro colegas, que lhe puseram lama na boca e deitaram-na ao chão, pisando-lhe a cabeça. Eram já frequentes as quezílias entre eles – ao ponto da mãe pedir aos professores para a deixarem ser a primeira a sair da sala de aulas (ver caixa). Desta vez Ana tinha sido arrastada do bar para a ribanceira que fica junto ao muro, das traseiras, da escola. Atiraram-na ribanceira abaixo várias vezes e insultaram--na. 'Deram-me chapadas, pontapés, socos e deram-me com uma capa na cara' – recorda. Ainda lhe rasgaram os cadernos e desapareceram os seus livros. Ninguém a ajudou. E os professores e auxiliares não deram por nada.
A escola participou à polícia e o caso foi entregue ao tribunal. Entretanto, a menina ainda não tem apoio psicológico. A mãe só lamenta ter a filha 'numa escola sem condições para tomarem conta de tantas crianças'.
Allan Bean, especialista em Educação, reconhece o seu erro ao ter aconselhado o filho – que desde o 7.º ano era vítima de bullying e que viria a morrer mais tarde por consequência dos danos provocados –, a retaliar. Escreveu conselhos em livro – como ‘A Sala de Aula sem Bullying’, da Porto Editora – e no seu site bullyfree.com (parte dessas dicas podem ser lidas nas caixas). Foi a tristeza de ter perdido um filho que o leva a correr o Mundo em conferências sobre este fenómeno social.
O QUE PODEM OS PAIS FAZER PARA AJUDAR UM FILHO QUE ESTEJA A SER VÍTIMA DE BULLYNG?
• Diga ao seu filho que ninguém merece ser vítima de bullying;
• Mantenha-se calmo;
• Seja sensível ao facto de o seu filho se sentir humilhado;
• Tente saber o que aconteceu, quando, com quem, como e porquê;
• Mostre confiança na resolução do caso;
• Peça ao seu filho para escrever os seus sentimentos sobre o sucedido;
• Explique-lhe que é normal sentir-se ferido, com medo ou raiva;
• Não diga para retaliar;
• Não diga para ignorar o agressor;
• Ensine-o a ser assertivo, não agressivo;
• Comunique à escola todos os episódios;
• Fotografe as marcas de agressões;
• Seja paciente com a escola;
• Inclua o seu filho na tentativa de encontrar uma solução;
• Peça a colegas do seu filho, com boa conduta moral, para o acompanharem na escola;
• Não desista.
FIQUE ALERTA AOS SINTOMAS QUE NORMALMENTE UMA VÍTIMA APRESENTA PARA SABER QUANDO AJUDAR
• Desinteresse súbito pela escola;
• Desmazelo súbito na elaboração dos trabalhos-para-casa;
• Escolha de outro caminho para a escola ou um meio de transporte diferente;
• Felicidade durante os fins-de-semana, mas tristeza aparente e preocupação/tensão no domingo;
• De repente, prefere ficar na companhia dos adultos;
• Frequentemente doente (dores de cabeça ou de estômago);
• Pesadelos e insónias durante a noite;
• Volta para casa com arranhões inexplicáveis, contusões e roupa rasgada;
• Fala sobre como evitar certas áreas da escola e/ou do bairro;
• De repente, começa a fazer bullying
• Procura os amigos errados nos piores locais;
• Começa a falar de suicídio e diz sentir-se deprimido.
(Conselhos do especialista norte-americano em Educação Allan Bean)
ANA MILENE, DEZ ANOS, FOI ASSISTIDA NO HOSPITAL POR AGRESSÃO. A MÃE JÁ INTUÍA
Ana Milene Magalhães, 10 anos, foi assistida a 6 de Fevereiro no Hospital Garcia de Orta, em Almada, vítima de agressão (relatório na foto ao lado). Há muito que um grupo de colegas se tinha incompatibilizado com ela. Acontece que Ana pouco mais de dois amigos terá na escola. Estava vulnerável a qualquer ataque. Bastava que os funcionários da escola não estivessem atentos ao que se iria suceder: foi agredida por mais de uma hora com chapadas, pontapés, murros e humilhada. Depois, os quatro colegas, já com ela no chão, encheram-lhe a boca de lama e pisaram-lhe a cabeça. De seguida, atiraram-na ribanceira abaixo várias vezes. Tudo dentro da escola.
Rute Marina, a mãe de Ana, já temia que algo pudesse acontecer à filha. Ela vinha a dar sinais de não querer ir à escola porque algo a estaria a perturbar. Assim sendo, no dia 21 de Janeiro, Rute escreveu na caderneta de aluno da filha (na foto ao lado) um recado à directora de turma: queria que os professores deixassem a filha ser a primeira a sair da sala de aulas para que não ficasse exposta às agressões, ainda que verbais, até ali, dos colegas. Da Escola Básica Integrada do Monte de Caparica, em Almada, a casa de Ana, também no bairro problemático do Pica-pau Amarelo, são dois minutos a pé. Mas acabou por ser agredida no passado dia 6.
Bruno Contreiras Mateus
Lusodescendente pede um milhão de euros por intimidação na escola
O jovem alega que, por causa dos insultos continuados que sofreu durante vários anos, entrou em depressão e que isso afectou o seu desempenho escolar, social e pofissional.
Todavia, Andrew Miller, o advogado do estabelecimento de ensino, a Berkhamsted Collegiate School, faz um retrato diferente, sugerindo que Thomson exagerou nos problemas psicológicos que diz ter por causa de ter sido gozado pelos colegas e nas incapacidades de interagir com colegas que descreve.
Como prova, mostrou fotografias de viagens e festas que Thomson colocou na sua página no Facebook [rede social na Internet], referiu as boas notas queo jovem teve no ensino secundário e a licenciatura em engenharia electrónica que concluiu no Imperial College de Londres, «uma das melhores universidades do Reino Unido e do mundo».
«Não é demais pedir um milhão delibras?», questionou hoje o advogado, numa sessão no tribunal, comparando o valor da indemnização reinvindicada com aquele que «um paraplégico pediria» num acidente.
O jovem defendeu-se, alegando que as fotografias em que aparece a sorrir não reflectem o seu estado de espírito. «A depressão não é fácil, é uma montanha russa. Tenho uns dias melhores, outros piores», retorquiu.
John Thomson alega que desde os 11 anos, em 1996, foi insultado e humilhado repetidamente por colegas, que lhe chamavam «pobre menino rico».
Thomson queixa-se de que a escola, privada e de inspiração católica, não o defendeu devidamente quando se queixou dos insultos de que era alvo.
O jovem entrou em depressão e tentou o suicídio em 2001, então com 16 anos, levando os pais, a portuguesa Gracinda e do britânico Ian, a mudá-lo de escola.
A Berkhamsted Collegiate School continua a argumentar que não existem provas de uma campanha sustentada de intimidação e que não teve conhecimento das queixas antes de 2001.
De acordo com a imprensa britânica, este processo pode criar um precendente judicial pois casos anteriores semelhantes contra escolas privadas foram resolvidos fora do tribunal ou abandonados.
O julgamento decorre no Supremo Tribunal de Londres. Arrancou na segunda-feira e deverá durar cerca de duas semanas.
Lusa/SOL
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Jovens viciados na Internet tendem a ser mais agressivos
No mesmo estudo os investigadores consideram que também os jovens com comportamentos depressivos ou que passam muito tempo em frente à televisão a assistir a conteúdos violentos, têm tendências de violência.
Citado pela agência noticiosa um dos investigadores defende ser possível que os jovens violentos sejam os que tenham uma utilização mais obsessiva da Internet.
Chih-Hung Ko alerta ainda para o papel dos pais, que devem ser mais atentos ao comportamento dos seus filhos quando estes estão a navegar on-line.
Para os investigadores, as principais provas de vício na Internet surgem quando os jovens estão vários dias sem aceder à Internet, e dizem respeito a um sentimento de irritabilidade ou a falta de interesse em actividades não relacionadas com a Rede.
O estudo revela ainda que dentro do grupo dos adolescentes viciados na Internet, os que têm comportamentos mais violentos e agressivos são os que passam grande parte do seu tempo em chats, sites de jogos, sites de pornografia e fóruns de discussão.
O autor do estudo acredita que este tipo de sites podem incentivar os jovens «a libertar a sua raiva» e seguirem comportamentos que normalmente não têm na vida real.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Professora agredida a murro por mãe de aluna de escola secundária na Figueira da Foz
Uma professora de História da Escola Secundária Bernardino Machado, na Figueira da Foz, foi alegadamente agredida a murro pela mãe de uma aluna do 11º ano, tendo apresentado queixa na PSP, disse hoje fonte policial."Foi uma agressão física sem arma. A senhora foi vista no centro de saúde e depois formalizou a queixa", disse fonte da PSP da Figueira da Foz. O caso aconteceu sexta-feira durante uma reunião na escola sobre o rendimento escolar da aluna, entre a mãe da rapariga - já identificada pelas autoridades -- e a docente, ambas com cerca de 40 anos. A fonte da PSP considerou estar-se perante uma "situação muito grave", dado o contexto em que a alegada agressão ocorreu. "Nem sequer necessita de queixa, segundo o Código Penal. É um crime público, porque há uma relação directa entre a função da docente e a agressão", explicou. O caso está entregue ao Ministério Público.
Região de Lisboa com mais inquéritos relacionados com violência escolar
Lisboa é a região do país onde se verificaram em 2008 mais inquéritos relacionados com casos de violência escolar, segundo dados da Procuradoria-Geral da República (PGR) hoje divulgados. Segundo uma nota da PGR, na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa foram abertos em 2008 "cerca de 111 inquéritos" (investigações) relacionados com violência escolar.No Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa foram registados 15 casos relativos a crimes de "ofensas à integridade física contra professores e outros membros da comunidade escolar". Segundo a PGR, o DIAP do Porto tomou nota de 11 inquéritos "por ofensa à integridade física contra professores" e 21 participações por furto em "estabelecimento de ensino, com arrombamento, escalamento ou chaves falsas".Em 2008, o DIAP de Coimbra iniciou 12 inquéritos a crimes de "ofensas à integridade física contra professores e outros membros da comunidade escolar", enquanto o DIAP de Évora registou quatro inquéritos "por factos relativos a violência sobre professores ou alunos em ambiente escolar". A PGR salienta ainda que, relativamente a Évora, "dois inquéritos foram arquivados; num inquérito foi proferido despacho de acusação e outro inquérito encontra-se pendente".A mesma nota não inclui dados sobre o Algarve, os Açores e a Madeira. No final de Outubro de 2008, a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL) divulgou ter registado até então um total de 57 casos de violência relacionada com a comunidade escolar, tendo a maior incidência sido verificada no Círculo de Almada, com 21 casos.Contactada pela Lusa, fonte do Ministério da Educação (ME) afirmou que os dados do ME sobre este assunto, relativamente ao ano passado, "estão a ser consolidados". Sem comentar os números hoje adiantados pela PGR, também a PSP, responsável pelo programa Escola Segura, informa que o relatório sobre a actividade deste programa em 2007/08 "será tornado público em parceria com o Ministério da Educação".
Pais preocupados com dados do Ministério Público sobre violência escolar

As associações de pais de Lisboa consideram "preocupantes" os dados hoje divulgados pelo Ministério Público que demonstram que Lisboa é a região onde há mais inquéritos relacionados com casos de violência escolar: cerca de 111 em 2008. Isidoro Roque, presidente da Federação Regional de Lisboa das Associações de Pais (FERLAP), considera "preocupante a quantidade de processos-crime relativos a violência em ambiente escolar", defendendo a urgência no combate à violência nas escolas."Problemas há muitos, mas poucas soluções", argumenta Isidoro Roque numa nota, alertando para a falta de medidas aplicadas nesta matéria. O presidente da Confederação das Associações de Pais (Confap), Albino Almeida, considera igualmente "inaceitável e lamentável" que estes problemas continuem a proliferar nas escolas."As escolas devem impor-se naquelas que são questões de comportamentos desviantes, combatendo-as através dor órgãos necessários", defendeu. Segundo Albino Almeida é necessário e urgente, no sentido de se resolver os problemas de indisciplina, analisar cada escola, porque cada caso é um caso, e auferir as condições reunidas para combater estas situaçõesJá a Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) defende, em comunicado, a necessidade de serem criados gabinetes de apoio à integração dos alunos nas escolas, mais profissionais auxiliares para os estabelecimentos de ensino de maior risco, mas também o reforço do programa Escola Segura, da PSP.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
"Uma menina de 10 anos teve que receber tratamento depois de ter sido espancada. Agressão foi praticada na própria escola [Escola Básica Integrada do Monte da Caparica, em Almada] e os agressores apontados pela garota são quatro alunos, seus colegas. A GNR investiga o caso."
Jornal de Notícias, 8 de Fevereiro
"A PSP vai comunicar ao Ministério Público a agressão sofrida, esta terça-feira, por um professor de Inglês da Escola Básica 2-3 Dr. Francisco Sanches, de Braga, que ficou a sangrar abundantemente depois de esmurrado pelo tio de um aluno, disse à Lusa fonte da corporação."
Portugal Diário, 11 de Fevereiro
Estas são duas notícias recentes de agressões em escolas portuguesas. Em qualquer escola do mundo, pública ou privada, pode acontecer uma agressão. Mas o que está a acontecer em Portugal não é nada disso. À semelhança dos desastres de avião que frequentemente resultam não dum grande problema mas sim dum somatório de falhas que isoladamente não têm grande importância mas em conjunto desencadeiam a catástrofe, também uma leitura deste tipo de notícias permite concluir que algo de profundamente anormal está a acontecer nas escolas públicas, em Portugal.
Por exemplo, no caso da agressão à menina na Escola Básica Integrada do Monte da Caparica, em Almada, verifica-se que a aluna foi agredida dentro da escola, durante uma hora. Nem funcionários nem professores deram por isso. Uma hora é muito tempo. E cinco crianças, isto a contarmos apenas a agredida e os agressores, envolvidas numa cena destas fazem uma certa algazarra. Mas
admitamos que tal pode acontecer. Em seguida a criança agredida saiu da escola acompanhada por dois colegas, o que quer dizer que, pelo menos, entre os alunos já corria informação sobre a agressão. A menina tinha a roupa cheia de lama, sangue na boca e a cara esfolada. Mas saiu da escola, durante o período escolar, e repito: durante o período escolar, sem que qualquer funcionário ou professor considerasse que devia intervir. Ou teremos de admitir que uma criança neste estado consegue atravessar as instalações escolares e passar pela portaria sem que professores ou funcionários a vejam? É difícil entender que tal aconteça, mas admitamos que estava muito nevoeiro ou que estavam todos a contemplar o céu e logo também isto pode ser possível. Chegada a casa, a criança foi levada ao Hospital Garcia de Orta, cujo relatório citado pelo Jornal de Notícias diz o seguinte:
"Criança de 10 anos, sexo feminino, vítima de agressão física por parte de quatro colegas da escola, todos com 11 anos. Hematoma facial esquerdo, dor abdominal e dorsolombar difusa, escoriações em ambas as palmas das mãos e lombares".
Face a este relatório, a "GNR investiga o caso". Cabe agora perguntar o que faz a GNR no meio disto? Em relação aos agressores que nem sequer têm 12 anos não podem fazer nada. E sobretudo o que sucedeu naquela escola e está a suceder um pouco por todo o país é uma sequência de desresponsabilização por parte de professores e funcionários: não ver, não intervir, olhar para o outro lado tornaram-se a estratégia de sobrevivência numa escola sem autoridade nem prestígio. Na evidência dos hematomas ou das filmagens com telemóvel abre-se então um inquérito e apresentam-se queixas na polícia, como quem lava as mãos.
Passando para o caso da agressão a um professor numa escola de Braga, nota-se
exactamente o mesmo receio de intervir: um homem entra numa escola ameaçando bater num determinado professor. Não consegue e espera-o à saída
da escola, tendo concretizado a agressão à saída, perante várias testemunhas. Não conheço qualquer outro local de trabalho, além das escolas portuguesas, onde uma pessoa ameaçada saia do seu local de trabalho sem que alguns colegas o acompanhem.
É este espírito de medo, rebaixamento, falta de princípios e cobardia que se incute diariamente nas escolas aos nossos filhos? É. O vazio de autoridade nas escolas levou a isto: chama-se a polícia e abrem-se processos judiciais para tentar intervir em situações que um conselho directivo devia ter meios para resolver. Para cúmulo, deste ambiente perverso que levou à criminalização do quotidiano prometem-se agora câmaras de videovigilância para 1200 escolas. Alega o ministério que o Plano Tecnológico da Educação vai dotar as escolas de
computadores, quadros interactivos e videoprojectores por cuja segurança estas
câmaras irão zelar. Apanhando o comboio, muitas escolas esperam também que as câmaras dissuadam alguns actos de violência. Mas, como todas as semanas
notícias como estas confirmam, o problema não é não ver. É não querer ver. Ou
ter medo de ver. Quantos adultos viram aquela criança ser agredida na Escola
Básica Integrada do Monte da Caparica? Nenhum? E nenhum a viu sair da escola com lama e sangue na cara? Ninguém viu o agressor à espera do professor de Inglês à porta da Escola Básica 2-3 Dr. Francisco Sanches, de Braga? O que fez falta nestas escolas não foram câmaras de videovigilância. O que fez falta foi não ter medo de assumir responsabilidades.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Método contra 'bullying' com sucesso em Espanha

Alunos identificam colegas na Net de forma anónima
Uma equipa de investigadores da Universidade Complutense de Madrid (UCM) desenvolveu um método para combater o bullying , que diz ter tido sucesso nas escolas espanholas. Os resultados do método - que passa pela aplicação de um programa informático em que os alunos identificam de forma anónima os colegas que gostam ou não - foram apresentados ontem no El Mundo, na véspera do arranque, em Lisboa, da 4ª Conferência Mundial sobre "Violência na Escola e Políticas Públicas", onde o fenómeno vai estar em destaque. Um projecto que já recebeu o acolhimento de países como a Suécia e a Finlândia mas que é ainda desconhecido pelas associações de pais e professores portuguesas e pelo Observatório da Segurança Escolar.A pensar no medo da vítima em denunciar um colega (uma das principais dificuldades em detectar o bullying), a equipa da UCM lançou, em 2004, um programa informático que identifica as vítimas e os agressores de forma anónima. É ainda um modo de detectar o fenómeno precocemente e evitar que as agressões (físicas e psicológicas) se prolonguem e deixem feridas incuráveis.O programa espanhol baseia-se numa ferramenta informática que disponibiliza as fotografias de todos os alunos de uma turma, questionando-os individualmente: "Com quem gostas de brincar?" e "Quem é que te incomoda mais?", são exemplos de perguntas a que os estudantes respondem, clicando em cima da fotografia do colega correspondente. "É muito mais simples e eficaz do que escrever ou falar sobre o assunto. Os jovens respondem com mais liberdade e sem se sentirem coagidos", afirmou o "pai" do método, Martín Babarro.A ideia é levar os colegas a apoiar as potenciais vítimas e trabalhar com os agressores. A experiência começou no colégio madrileno Salvador Allende, que frisa o sucesso da iniciativa. Além do alargamento a toda a Espanha, também a Finlândia e a Suécia foram a este país ver de perto o programa.Pode ser aplicado em PortugalPor cá, ainda ninguém ouviu falar deste projecto, apesar de já ter cinco anos e da interligação entre as associações portuguesas e espanholas. O presidente da Associação Nacional de Professores (ANP), João Grancho, admite que "tudo o que se faz pode servir de inspiração e pode vir a ser aplicado em Portugal". Também Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), fala ao DN da possibilidade do programa "servir como modelo de inspiração para aplicar nas escolas portuguesas". Até porque, "as boas ideias como esta não deixarão de ser adaptadas à realidade nacional". No entanto, disse, "todas as medidas aplicadas actualmente em Portugal são adequadas, como a tutoria entre os pares, em que os alunos menos problemáticos acompanham os mais problemáticos e os mais velhos apoiam os mais novos". Estas "brigadas de intervenção têm-se revelado muito eficazes", concorda Albino Almeida.O psiquiatra e membro do Observatório da Segurança Escolar Daniel Sampaio contesta a solução espanhola. O "problema do bullying não se resolve com um programa informático, que só pode funcionar se for integrado num método geral de combate ao fenómeno". "É necessário trabalhar com as famílias, os alunos, os auxiliares da educação e os professores", defende.Outro ponto fundamental para o especialista é o conhecimento da vítima. "Não se pode pensar no 'bullying' sem tratar a vítima". Já que "o próprio comportamento das vítimas (vergonha, inibição, minoria étnica ou sexual) pode incentivar esta prática", denuncia. Até porque, "não se pode pensar só no menino mau que é o agressor e no menino bom que é a vítima. O agressor pode mesmo ser promovido no grupo de amigos e os seus actos entendidos como positivos". Por isso, o médico considera que "o bullying é muito mais complexo" do que a abordagem do programa espanhol.O DN tentou, sem sucesso, contactar o Ministério da Educação para obter um comentário sobre a possível aplicação no País.
Eric Debarbieux: “Os professores não são treinados para agir em caso de violência”
A violência não está a aumentar, diz Eric Debarbieux, professor de Ciências da Educação da Universidade de Bordéus, em França. Mas é preciso agir, não com medidas repressivas, mas pensadas a longo prazo. É presidente do Observatório Internacional da Violência Escolar, uma organização não governamental “científica”, uma “federação de investigadores” de 52 países, que faz estudos e recomendações aos Governos. A quarta conferência internacional decorre entre amanhã e quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.Qual é o grau de influência do Observatório Internacional da Violência Escolar nas políticas dos países?O nosso objectivo é ter influência, dizer o que está certo e errados nas políticas públicas. Por exemplo, sabemos que o melhor caminho não é ter políticas de repressão nas escolas e dizemos isso. O que não significa que sejamos ouvidos pelos políticos. A violência na escola é um tópico inconveniente que é recorrentemente recuperado pelos média e pelos políticos, que exageram sobre as suas causas e os seus efeitos. Contudo, a investigação mostra que a violência na escola não está a aumentar. Não está a aumentar?Vou dar um exemplo: Recentemente um país africano pediu-nos para fazermos um estudo. O observatório concluiu que o problema era as crianças não irem à escola, sobretudo as raparigas e recomendamos que o investimento devia ser feito na sua educação. É claro que não ficaram satisfeitos. A razão científica nem sempre é palavra de acção, mas é essa a nossa função.A violência escolar vai da agressão verbal aos massacres nas escolas? Os tiroteios não são um problema real. Nos EUA, os estudos dizem que o risco de um aluno ser vítima de um tiroteio é de um para um milhão, no entanto, 80 por cento dos estudantes tem medo de ser vítima. O verdadeiro problema é a violência continuada e repetida, a que chamamos bullying, sobre alunos, mas também sobre professores. Por vezes, pensa-se que não é importante, que é uma coisa pequena, mas sabemos que as consequências são muito graves para as suas vítimas. Há pesquisa que mostra que uma vítima de bullying pode tentar o suicídio mais quatro vezes do que alguém que nunca sofreu bullying na escola. É contra esta pequena violência que temos de lutar.É diferente de país para país?Há países onde há problemas graves de violência escolar. Em África, no Burkina Faso, 37 por cento das raparigas já foram vítimas de abusos sexuais por parte dos professores. Outro problema são os castigos corporais, nos EUA há 18 estados onde ainda são permitidos. Sabemos que as consequências podem ser nefastas. Por exemplo, grande parte dos tiroteios dentro de escolas é nesses estados onde os professores podem bater nos alunos. Disse que a violência escolar não está a aumentar, mas são tornados públicos cada vez mais casos. Porquê?Em França, a média do número de alunos vítimas de bullying não está a aumentar, mas se observarmos as escolas dos subúrbios, de zonas mais frágeis em termos sócio-económicos, a violência escolar está a crescer. Na Europa, a violência na escola está ligada à exclusão social e é um assunto que a democracia deve combater. Mas não é assim em todos os países.Quer dizer que a violência pode não estar ligada à exclusão?Em muitos países pobres africanos e da América Latina a violência escolar não é um problema porque a comunidade protege a escola. Para ela, a escola é um capital social, é uma oportunidade para sair da pobreza, enquanto noutros países, na Europa e EUA, a escola é vista como um inimigo. No Brasil, nas favelas onde não há saneamento, a escola é o único bem e os professores têm até 80 alunos na sala de aula e não há problemas de violência.Significa que depende do contexto onde a escola se encontra?É o que vamos discutir neste congresso: A violência em contexto. Como é que o contexto pode fazer parte da solução? Sabemos que há dezenas de milhares de alunos, em todo o mundo, que odeiam o clima escolar.Porque a escola continua a ser igual desde a revolução industrial e recebe públicos para os quais diz não estar preparada?Os professores não são preparados para intervir. Por exemplo, uma hospedeira é treinada para reconhecer o stress de um passageiro, um quadro bancário para a gestão e dinâmica de grupo, e os professores não. Em termos políticos, é uma prioridade repensar a formação. A maneira como se gerem os conflitos é muito importante, há necessidade de formar os professores também para trabalhar em equipa. Se não houver esse trabalho de equipa, a porta da escola está aberta para entrar a cultura de violência. Não podemos mudar a família ou a sociedade, mas podemos mudar a maneira como se trabalha na escola. A pedagogia pode contribuir para a solução.Os alunos precisam de gostar da escola?O sentimento de pertença à escola é uma das chaves. Se um professor ou um aluno está isolado, corre maior risco de ser vítima de violência. Por isso, é preciso apostar na boa convivência escolar. É uma necessidade criminológica para nos proteger da violência escolar, porque os agressores não são corajosos, são jovens que atacam e roubam os da mesma classe social. Se há uma equipa a funcionar na escola, as agressões podem reduzir-se.E as câmaras de vídeo ou a polícia à porta da escola?Há escolas com os portões fechados e videovigilância. São meios que podem tornar-se perigosos porque os alunos interpretam que a escola os quer vigiar e controlar, bem como aos amigos e à família. O desafio é evitar a violência de exclusão, ou seja, aquela que é feita fora da escola contra a polícia, os transportes públicos, os bombeiros, porque essa é mais difícil de controlar. As escolas devem criar regras claras contra o bullying. Quais devem ser as responsabilidades dos governos?Formar professores para saberem gerir conflitos. Tomar medidas de apoio às vítimas, mas também de apoio aos agressores. Não basta agitar o cassetete, os Governos devem dar uma resposta que não seja dura e imediata, mas de longo prazo. Os governantes sentem um enorme fascínio pela repressão da violência extrema e isso deve-se à pressão mediática. Não há imagens da pequena violência, diária e repetida; mas há das consequências de um tiroteio num liceu norte-americano, que passam repetidamente na televisão. As políticas públicas devem dirigir-se à pequena violência.
Origens e causas da violência escolar
O que está na origem da violência escolar?
Não há uma causa, mas muitas que estão ligadas. A escola, a família, a comunidade... Sabemos que se os pais forem muito disciplinadores, que inflijam castigos corporais, pode haver mais violência; mas o contrário também pode dar origem a violência, ou seja, se os pais não exercerem qualquer controlo. O modo como se educa pode ser uma das explicações, mas não é a única. Não se pode falar de determinismo.
Há novas formas de violência escolar?
O cyberbullying é um problema novo, ainda não há dados quantitativos, mas muitos inquéritos revelam que há um aumento. É o mesmo problema que o bullying, o meio usado é que é diferente.
Quem são as vítimas?
São os alunos, sobretudo rapazes, vítimas de violência física; há menos vítimas do sexo feminino e a forma de violência exercida é condená-las ao ostracismo. Não posso dizer que seja pior, porque a violência física é acompanhada de violência verbal. As consequências são muito importantes: o absentismo, maus resultados escolares, falta de auto-estima, por vezes, sentimentos de culpa.
No futuro, as vítimas podem tornar-se agressoras?
A maior parte das vítimas não se tornam agressoras. Mas acontece. O risco é que reproduzam esses comportamentos com os seus próprios filhos. Sabemos que 80 por cento dos casos dos autores de massacres nos EUA foram vítimas de bullying.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
PGR acusa ministra de minimizar violência nas escolas
Na entrevista, o responsável afirma ter seleccionado a violência escolar como uma das suas prioridades, no âmbito da nova Lei de Política Criminal.
«Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe», refere Pinto Monteiro.
O PGR garante mesmo que vai preocupar-se com «cada caso de um miúdo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro», por não querer que haja «um sentimento de impunidade» nas escolas, nem que «esse miúdo se torne um ídolo para os colegas».
«Quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero. Mesmo que seja um miúdo de 13 anos, há medidas de admoestação a tomar. Se soubessem a quantidade de faxes que eu recebo de professores a relatarem agressões...», adianta Pinto Monteiro.
Segundo dados do Observatório da Segurança Escolar divulgados em Março no Parlamento, no passado ano lectivo foram contabilizadas 390 agressões a professores nas escolas e arredores, o que dá uma média diária superior a dois casos, tendo em conta que há 180 dias de aulas por ano.
No final de Outubro, a Procuradoria-Geral da República anunciou que iria emitir uma directiva ao Ministério Público para fazer a recolha de dados sobre violência escolar, «começando pela participação de todos os ilícitos que ocorram nas escolas».
No início deste mês, em entrevista à RTP1, a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, considerou «exageradas» as preocupações do Procurador-Geral da República sobre violência nos estabelecimentos de ensino.
«O PGR fez eco da sua preocupação, mas não há motivos para isso porque a violência escolar é uma situação rara e não está impune. O que existem é situações de indisciplina e incivilidade», sustentou, na altura, a ministra da Educação, adiantando que não queria que fossem criminalizados «actos que têm características específicas porque acontecem no meio escolar».
Contactado pela Lusa, o Ministério da Educação não quis comentar as declarações de Pinto Monteiro.
Diário Digital / Lusa
21-11-2007 19:29:00
domingo, 11 de novembro de 2007
CDS-PP propõe observatório para a violência e qualificação de crimes
O CDS-PP vai propor, esta quarta-feira, no Parlamento a institucionalização de um observatório para a violência na escola. Outra das propostas que os centristas vão apresentar tem a ver com a «qualificação» dos crimes aí cometidos.
( 09:52 / 31 de Outubro 07 )
O CDS-PP defende a institucionalização por via de lei de um observatório para a violência na escola, um órgão não transitório e que deve ter a participação de elementos ligados à polícia, não devendo assim depender só do Ministério da Educação.Os centristas justificaram a necessidade da proposta que farão esta quarta-feira na Assembleia da República após a ministra da Educação ter desvalorizado a prioridade do Procurador-geral da República relativamente a este assunto, algo que deixou «indignado» o deputado Diogo Feio.Em declarações à agência Lusa, o parlamentar acusou Maria de Lurdes Rodrigues de estar a «perder a noção da realidade» e aconselhou a ministra a «estar mais atenta ao que se passa no país».«O procurador-geral fez sérios avisos em relação ao que se passa nas escolas e a ministra respondeu que estávamos perante 'casos menores', que o número de participações não era tão grande assim e que havia coisas mais graves com que nos preocupar», afirmou Diogo Feio.O deputado considerou ainda que as declarações da titular da pasta da Educação mostram um «irrealismo total» e frisou que o seu partido se preocupa com a «defesa da escola, dos professores, alunos e famílias».Outra das propostas que será apresentada esta quarta-feira pelo CDS-PP tem a ver com o «agravamento» dos crimes cometidos nas escolas «sejam eles crimes de agressão ou outros crimes», que deverão ter uma «pena mais pesada».
Violência na escola
Na escola onde lecciono tenho reparado num problema que progressivamente se vem agravando entre os alunos. São notórias as situações de violência entre a crianças. Manifestações de revolta, desinteresse, baixa auto-estima e insegurança que se reflectem, com muita frequência, na agressão física.
Questiono-me como gerir situações sobre as quais tenho plena consciência que são reflexo, maioritariamente, das disfunções que aquelas crianças são vítimas fora da escola. Como fazer? Aplicar um castigo severo? Mais uma violência a somar a todas as outras...?
Noto que mesmo utilizando a calma alguns dos meus alunos não sabem ser diferentes porque nasceram no seio da violência. São crianças com auto-estima muito baixa. Facilmente acreditam que são culpadas das situações, embora não o assumam, numa tentativa que as atenções de repreensão não recaiam sobre eles. Não se sentem amadas e utilizam a agressão física como substituta das palavras, que muitas vezes não conhecem, para se defender.
É preciso que a família ensine as crianças a resolver os conflitos, e as frustrações inerentes, de forma não violenta. Claro que na escola o professor dará continuidade a esse trabalho. É necessário que as crianças sejam preparadas para os obstáculos que podem surgir numa relação, para os sentimentos e emoções. Sinto é a dificuldade de chegar àqueles que parecem já estar à margem. Que não têm um início trabalhado, supostamente pela família, para poder dar continuidade.
Nos dois últimos grandes conflitos que ocorreram senti necessidade de parar a aula, a matéria, fechar os livros e os cadernos.
Existiram cadeiras no ar, mesas viradas, arranhões, pontapés, muito choro e muitos gritos. Tudo causado por uma resposta menos própria, dada por uma aluna, numa conversa “parasita”.
Do recreio chegam-me também com muitas queixas uns dos outros. Ocorrem cenários de grande conflito nos quais tem que existir a intervenção do adulto.
A última grande conversa que tivemos durou 2h. Não posso pensar que estou a perder tempo, pois tenho matéria para dar. Sinto que esta é a única forma de ganhar tempo com eles.
Existe um “contrato” nas nossas conversas: cada um só pode falar de si próprio, nunca fazer queixas dos outros.
Nestas alturas acabam sempre por referir os conflitos que vivem em casa. Apercebo-me assim dos castigos e da pancada que frequentemente são alvo, da ausência de palavras a que estão habituados.
Curiosamente acabei por ouvir os meus alunos falarem do que é a solidão e como se sentem com ela. Alguns disseram que acordam tristes todos os dias porque parece que não têm amigos; ninguém para conversar.
Apercebo-me também do modo como muitas vezes os assuntos são resolvidos em casa:
- Se a professora não disser aquilo que quero ouvir, em casa, vou-te encher de tareia!... – gritou o encarregado de educação de um aluno, antes de entrar na sala de aula para receber a avaliação do 2.º período.
Por onde passa a solução para situações quotidianas destas? Só se pode apelar à paciência da professora? Onde está o tempo para uma atenção mais individualizada?
Depois de conversarmos sinto-os mais calmos, só que algumas vezes só até ao dia seguinte...
Teresa Filipa Sequeira
João Amado: "Escolas estão pouco aptas a lidar com violência e indisciplina"
A maioria dos professores lida mal com este tipo de situações e quase sempre de forma isolada. Por sua vez, as escolas acusam falta de liderança, não organizando sistemas internos de ajuda mútua.
De acordo com João Amado, professor universitário e co-autor, com Isabel Freire, de "Indisciplina e Violência na Escola - Compreender para Prevenir", é importante que desde cedo se instituam normas claras de conduta na escola e na aula. No entanto, "firmeza" não deve ser confundida com "castigo". EDUCARE.PT: A que se devem, regra geral, os casos de violência e indisciplina em meio escolar? João Amado: É uma pergunta simples para uma resposta difícil de dar, devido à complexidade da questão em causa. O que se pode dizer é que os factores são múltiplos e fortemente associados entre si. Podemos falar de factores de ordem social, familiar, escolar (organizacionais e pedagógicos) e individuais, cujo peso relativo só se pode avaliar verdadeiramente tendo em conta cada caso per si .E.: Como caracteriza a incidência desses casos, por grau de ensino e idade? JA: Diria que a investigação tem revelado um peso muito grande das variáveis graus de ensino e idade. O 2.º ciclo e, muito especialmente, o 7.º e o 8.º anos são, na maior parte dos estudos, anos de grande incidência.E.: São fenómenos que também estão ligados à origem social e ao grau de instrução dos progenitores desses alunos? JA: Estudos vários revelam a enorme importância de factores sociais e culturais. Sabemos que os hábitos, a linguagem, as exigências, enfim, a socialização que experimentam as crianças de famílias cultural e socialmente desfavorecidas pouco ou nada têm a ver com o que na escola se lhes oferece e vai exigir. Há escolas hoje frequentadas por crianças e jovens maioritariamente providas desses meios, o que constitui um enorme desafio a todos quantos nelas trabalham, e que só se vence por uma maior autonomia no mais diversos planos e por uma formação dos agentes educativos que os torne aptos a lidar com tais situações e a dialogar com a cultura do aluno.E.: Os casos de violência acontecem mais entre-pares ou entre aluno e professor? JA: Os números neste tipo de questões são sempre muito dependentes dos métodos e dos instrumentos usados. Mas há estudos que apontam para uma alta taxa de agressividade entre pares, das brincadeiras rudes ao bullying . Este estrangeirismo traduz-se, na prática, em agressões persistentes, continuadas, de carácter psíquico (sobretudo exclusão do grupo) e físico, de um aluno ou grupo de alunos sobre outro aluno vítima e incapaz de se defender por si mesmo. Actos que hoje começam a prolongar-se para lá da escola, com a utilização dos recentes meios de comunicação: Internet, telemóveis com câmara fotográfica, etc. Acrescente-se, no entanto, que a investigação nacional e internacional tem revelado que nas escolas onde os problemas entre alunos são mais frequentes e mais graves também são mais frequentes e mais graves os problemas de indisciplina e de violência contra os professores. Está tudo associado e altamente dependente, entre outras coisas, do clima que os líderes, responsáveis pela organização, e todos os implicados no quotidiano da escola são capazes de criar e de estabelecer.E.: Qual o perfil do aluno agressor? JA: Embora não se possa estabelecer um perfil generalizado, porque cada caso é um caso, é fundamental que se estabeleçam esses perfis em ordem a melhor prevenir as situações, diagnosticar problemas e fazer formação. Poderíamos dizer que, em traços gerais, a investigação tem mostrado que os agressores, desde muito cedo, têm uma enorme necessidade de dominar e vencer, são pouco tolerantes à frustração, são agressivos, falam muito de si como vencedores, desprezam os mais fracos...É possível estabelecer, também, um perfil do aluno vítima? Podemos dizer que esses alunos demonstram muita insegurança e ansiedade, aparentam angústia e infelicidade... Quando estão sob o efeito directo de actos de vitimação, alteram muito o seu comportamento na escola e em casa, tornando-se também agressivos sobretudo para com os mais novos, isolando-se e tendo reacções psicossomáticas como enurese. É importante a atenção dos pais a estes sinais. Muitos dos acontecimentos mais graves nas escolas surgiram, precisamente como "resposta" dos alunos vítimas!(continua)(2.ª parte) E.: Regra geral, como lidam os professores com essas situações? JA: Muito mal e sozinhos. Alguns inibem-se de falar das suas dificuldades neste campo, e a liderança das escolas geralmente - há excepções - não é pro-activa neste sentido, isto é, não organiza sistemas internos de ajuda mútua, que também seriam espaços de formação e incubadoras de projectos de intervenção ao nível da escola. Este envolvimento de toda a escola na tentativa de resolução dos problemas é muito importante a todos os níveis, até para prevenir o stress dos professores. E.: Até que ponto os professores - e também os auxiliares da acção educativa - estão preparados e têm formação para lidar com estas situações? JA: A preparação ao nível das escolas de formação inicial é mínima e, quase inevitavelmente, teórica. A formação contínua tem, também, em geral as falhas que lhe conhecemos: pouco sistemática e sem continuidade, virada para a obtenção de créditos, teórica... Aproveita pouco as situações reais: os casos, os projectos com e sem êxito, etc. para delas se aprender na troca de ideias e informações. A minha impressão a este propósito é bastante negativa. É negativa também quanto à formação dos auxiliares educativos.E.: De que modo é que a existência de casos de violência e indisciplina tem interferência no sucesso escolar da turma? JA: Eu diria que é o insucesso educativo que interfere em muito no insucesso escolar do aluno e da turma. Poderíamos falar, inclusive, de uma certa circularidade: o insucesso educativo interfere no insucesso escolar e vice-versa. A investigação tem mostrado que muitos - a maioria - dos problemas de indisciplina e de violência na escola envolvem alunos com insucesso escolar. As explicações para o facto são muitas. No que respeita à turma, são óbvias também as repercussões, porque aqueles comportamentos criam um clima de instabilidade e de ansiedade incompatível com a atenção e com o empenhamento necessário numa aula.E.: Expulsar um aluno que dá problemas da sala de aula ou suspendê-lo durante alguns dias é uma das formas possíveis de resolver a questão? JA: Estas medidas, só em casos muito excepcionais, dão um resultado positivo e persistente. Na maioria dos casos têm um efeito pontual, circunstancial; geralmente agravam mais os problemas do que os resolvem. Certos alunos vêem a sujeição a essas medidas como motivo de orgulho e de satisfação.E.: É possível ao professor adoptar um comportamento preventivo desses casos? JA: Claro que é possível a prevenção por parte de um professor e de uma escola. A acção isolada de um professor é positiva mas muito limitada, e pode passar, desde o início do ano, por apontar para a existência de um clima, nas suas aulas, de exigência quanto ao cumprimento de determinadas regras. No entanto, os alunos devem perceber a necessidade e o interesse dessas regras, o que implica também um clima de diálogo que, a não existir, motiva reacções negativas, agressividade, etc. Se o clima de diálogo, com a turma, com o aluno-caso, é fundamental, não o é menos um conjunto de práticas ligadas às próprias tarefas de ensino, como criar condições para que os alunos aprendam uns com os outros - trabalhos de grupo, ensino cooperativo, gestão da turma servindo-se, inclusive, de meios como a Internet - e aprendam a conhecer-se mutuamente, através de assembleias de turma, saídas em conjunto, etc.E.: E como é que a escola no seu todo pode actuar? JA: Logo à partida, produzindo um regulamento por todos conhecido, que contemple as regras da convivência, e que explicite paralelamente os direitos e os deveres de cada um e de todos. Depois, promovendo e apoiando acções que continuem a acção dos professores na turma: clubes e projectos vários - até virados para um melhor conhecimento do meio social e patrimonial -, assembleias de escola, dinamização da presença e intervenção dos encarregados de educação, gabinete de apoio aos alunos, um clima de ajuda entre professores, enfim, uma liderança capaz de empenhar toda a gente na construção de um ambiente saudável e seguro.E.: Deveria a acção dos órgãos de gestão das escolas ser mais firme nos casos de violência e indisciplina? JA: A firmeza assente na existência de normas e de regras é sempre necessária, indispensável; as regras e as normas são indispensáveis à vida numa organização. A firmeza, contudo, não significa ameaça e castigo. Antes de se chegar a esse ponto há todo um trabalho preventivo a fazer, como já disse. O castigo só deve ter lugar quando todos os outros meios se esgotaram. Firmeza sim e sempre, mas também compreensão profunda de cada situação, conhecimento de quem nela interveio e certeza de que o procedimento escolhido é o melhor para a educação do visado.(continua)(3.ª parte)E.: Os alunos violentos ou indisciplinados são automaticamente rotulados pelas escolas e postos de parte ou, pelo contrário, costuma haver um esforço no sentido de os recuperar? JA: Há de tudo. Professores e escolas onde se faz tudo para se entender, compreender as causas, e levar a uma mudança de comportamento destes alunos; e escolas onde se cria uma divisão permanente, os "bons" de um lado, o lado dos professores, e os "maus" do outro, numa guerrilha permanente a ver quem vence. Quando não é o diálogo que impera, vence-se pela força. E aqui o aluno acaba por perder, ainda que aparentemente não seja assim, porque há as faltas, as notas, as reprovações, a exclusão da escola. Os alunos problemáticos, mesmo os violentos, são os que mais precisam da escola e de pelo menos um professor que os compreenda, o que não quer dizer que apoie os seus actos. E.: Ao longo dos tempos, a autoridade do professor dentro da sala de aula tem vindo a ser cada vez mais posta em causa. Que responsabilidade têm os pais dos alunos no enfraquecimento da figura do professor? JA: Sim, a autoridade do professor está cada vez mais dependente da sua capacidade de liderança na turma e da sua capacidade de participar com os outros na política da escola, o que reforça a importância das suas qualidades pessoais e da formação nesse sentido. Para que tudo corresse bem, seria necessário haver complementaridade entre um bom clima de turma e de escola e um bom clima familiar. A investigação tem mostrado, no entanto, que os problemas na turma e na escola estão fortemente associados a problemas no seio da família. Exige-se (e bem) a um professor que saiba construir um ambiente de regras e de autoridade na sua turma. Mas tem de se compreender que isso é difícil se a turma é composta por alunos que vêm das suas próprias famílias sem regras e sem a referência de uma autoridade parental. Os professores podem fazer alguma coisa, mas não fazem milagres.E.: Existem outros responsáveis? JA: Claro. Os responsáveis pela falta de autonomia das escolas que lhes permita agir e ensinar em função da especificidade do seu público e que permita a existência de um corpo docente estável; os responsáveis pela inexistência de uma formação inicial e contínua de professores que os capacite para as exigências e desafios da Educação - não só, apenas, da instrução - num tempo de hoje; os responsáveis pela inexistência nas escolas de todo um conjunto de outros técnicos capazes de auxiliar a acção dos professores.E.: Qual o quadro da violência e indisciplina em meio escolar noutros países europeus? Qual é a postura dos professores e dos órgãos de gestão estrangeiros perante esses casos? JA: O problema noutros países é semelhante ao nosso. Há, porém, alguns desses países, a ajuizar pelas notícias e por alguma investigação, em que a situação é pior pelo número e pela gravidade dos problemas. Mas também há maior sensibilização por parte das autoridades, dos professores, das organizações não governamentais - muitas vezes da iniciativa dos encarregados de educação - para todos estes problemas, o que dá origem a todo um conjunto de iniciativas da sociedade civil que não vemos entre nós.PERFIL: João Amado é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A partir de 1976 inicia uma carreira como professor do Ensino Secundário. Em 1989, inicia funções docentes no Ensino Superior, após ter concluído o mestrado em Educação. Nove anos depois, obtém o grau de Doutor em Ciências da Educação, conferido pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde é professor. É co-autor, com Isabel Freire, do livro "Indisciplina e Violência na Escola - Compreender para Prevenir", e tem realizado inúmeras acções de formação sobre a problemática da (in)disciplina.
Violência nas escolas
Ainda o primeiro período de aulas não chegou ao fim e já a miúda, de dez anos, sabe de cor que tem de pagar a três dos seus colegas - de pouco mais idade - aquilo que lhe pedirem. A 'renda' diária chama-se extorsão em linguagem de adulto, mas aqui as regras são outras. Paga-se, ponto. Um dia, a miúda está mais inquieta e os professores notam. Chamam-nos e descobrem que há ameaças. Desta vez não eram facas. "Diziam-lhe que se não pagasse contariam à escola toda que ela tinha sido violada aos cinco anos". E tinha.
No recreio, um aluno meteu-se com a namorada de outro. O confronto físico imediato envolveu matracas e soqueiras, alguns colegas e muitos amigos do bairro, convocados por SMS. Os carros da polícia tornaram-se presença constante junto à escola e no bairro onde moravam até houve tiros. "Estamos próximos da realidade dos «gangs»", comenta o professor de matemática. Fala de uma escola do centro do Porto, onde já viu descerem as calças à frente do presidente do conselho executivo. Mas há episódios muito semelhantes nos arredores de Lisboa, como o que abre este texto.
O Expresso visitou seis escolas de alto risco - cujos nomes não são revelados por opção editorial - onde uma simples ordem para calar ou manter sentado um aluno basta para iniciar um confronto. Os professores habituaram-se a isto e até vêem progressos em relatos de guerra aberta. "Este ano está melhor, só tivemos ainda 20 processos disciplinares", dizia a presidente de um conselho directivo dos arredores da capital. Ainda estamos no começo do ano e já foi expulso um aluno que frequenta a antiga primária, mas como "não há armas" isso conta para o saldo positivo. Porque há uns anos não era assim, garante: "Tinha um caixote onde ia pondo armas brancas de toda a forma e feitio". Acredita também que terá passado a "fase do roubo dos telemóveis, que varria a escola e arredores". Ou "a época muito complicada - como conta outra professora de outra escola - em que até houve uma cena de facada", em plena sala de aula, por um ajuste de contas de droga entre os «dealers» e um rapaz do 8º ano.
Quem se habituou à violência faz as contas a pequenos ganhos. "Nunca tivemos um pneu furado" ou "agora já não partem os vidros da escola, porque são laminados" são vantagens no currículo de quem insiste em não desistir. No Porto, um professor chega a ter pesadelos antes de enfrentar algumas turmas, onde sabe que dará aulas sem ter oportunidade de ensinar nada. "No ano passado, 100 dos 160 professores pediram transferência. Isso dá ideia da frustração que sentimos", comenta. Na EB 2/3 de um concelho vizinho, Fátima foi pontapeada por trás num corredor. Não identificou o agressor, mas percebeu o que seria a sua vida de professora, entre ameaças, agressões e insultos. "Na escola e na sala de aula, sinto-me próxima das vítimas de violência doméstica. A agressão pode surgir a qualquer momento e somos impotentes para resolver o problema", diz. Lamenta principalmente o desinteresse dos pais, numa freguesia onde o crescimento exponencial da população trouxe a criminalidade, 70% das famílias são desestruturadas e 40% dos jovens têm problemas de droga e álcool.
No mesmo concelho, outra escola enfrenta uma guerra contra a droga. "Aos 10 anos, muitos alunos já estão viciados. Vê-se isso ao primeiro olhar", diz a directora. A droga vende-se do lado de fora, apesar do posto da GNR ser na rua seguinte. Em Lisboa, outra escola resolveu o problema do tráfico. "Sabíamos quem eram os alunos que vendiam. Reunimo-nos com eles e com os pais e ficou decidido: só longe da escola". A solução parece ter resultado. O problema, como toda a gente sabe, é que não. Está muito para lá dos muros das instituições de ensino. Ainda esta semana, um encarregado de educação forçou a entrada, de pistola em punho, só porque não queria esperar à porta pelo filho. "Mesmo assim, sinto-me privilegiada quando ouço relatos de outros colegas", confessa uma professora dessa escola.
Texto Margarida Cardoso e Rosa Pedroso Lima
Definições, incidência e causas da violência em Portugal
Definição
Em Portugal existem duas abordagens diferentes na investigação sobre a violência na escola. Na primeira, enquadram-se os estudos sobre a indisciplina, tomando como objecto as diferentes situações e comportamentos (sejam violentos ou não) que não estão em conformidade com as regras de carácter escolar e social vigentes em cada escola (Estrela, 1986; Amado, 1989; 2001; Freire, 1995; 2001; Veiga, 1995;1999). Na segunda abordagem, foca-se a violência como um fenómeno específico, realçando o seu carácter social e psicológico (Costa & Vale, 1998; Pereira et al., 1996; Almeida, A. 1999).
O comportamento violento distingue-se doutros tipos de comportamento pelo impacto negativo, tanto físico como emocional, que tem sobre aqueles a quem se dirige; ou seja, a violência implica a intenção deliberada de causar dano a outrem e, neste sentido, representa um problema disciplinar específico das escolas.
A violência na escola traduz-se numa grande diversidade de comportamentos anti-sociais (qualquer forma de opressão ou de exclusão social, agressões, vandalismo, roubo) que podem ser desencadeados quer por alunos quer por outros elementos da comunidade escolar. Estes problemas são, normalmente, associados quer a baixos níveis de tolerância quer a dificuldades no desenvolvimento moral e na auto-estima das vítimas e dos agressores. O fenómeno da violência está, também, intimamente associado aos princípios fundamentais da democracia e à defesa dos direitos humanos.
O problema do "maltrato entre iguais" (bullying) pode ser visto como um aspecto particular da violência na escola que, segundo a definição proposta por Olweus (2000), ocorre quando "quando um aluno ou uma aluna são expostos, repetidamente e durante um período de tempo, a acções negativas por parte de um ou mais alunos". A designação "maltrato entre iguais" deve ser usada quando existe uma relação assimétrica de poder entre alunos. Este tipo de agressões pode ser levado a cabo quer por um aluno individualmente quer por um grupo.
Os estudos sobre o "maltrato entre iguais" revelam que este fenómeno atinge tanto os adolescentes como as crianças, constituindo, assim, uma grande preocupação para os educadores, dada a sua influência no desenvolvimento dos alunos.
Em Portugal, tal como em outros países, as raparigas são com maior frequência vítimas de agressões indirectas (como seja a exclusão social, rumores pejorativos, entre outras) enquanto que os rapazes são mais frequentemente vítimas de agressões físicas e de ameaças (Pereira et al., 1996).
Incidência do problema
Em Portugal, como em outros países, nos últimos anos, a violência na escola tem tido cada vez maior visibilidade social, em grande parte, devido à acção dos media. Todavia, pode dizer-se que nas escolas portuguesas as situações de violência são raras. Apesar disso, a violência constitui uma preocupação fundamental, dado o potencial impacto negativo quer na vítima quer nos agressores quer, ainda, no clima geral da escola.
Em 1999, o Ministério da Educação português recebeu 1300 comunicações de situações de agressões contra alunos, professores, e outros membros da comunidade escolar. Do total de actos agressivos, apenas 55 foram desencadeados por alunos ou pais contra professores, pelo que a maioria dos actos de agressão ocorre entre alunos.
Um estudo desenvolvido com uma amostra de 6200 alunos em escolas públicas das áreas urbanas, suburbanas e rurais no Norte de Portugal (Pereira. B., Almeida, A.T., Valente, L., & Mendonça, D., 1996), verificou que 21% dos alunos apontam já ter sido agredidos por colegas, e 18% afirma já terem tido um comportamento agressivo, registando-se três ou mais vezes no ano transacto. Os comportamentos violentos mais frequentes são insultos, seguidos de agressões físicas, rumores pejorativos e roubo. Esse estudo também verificou que a maior parte das situações ocorrem no recreio.
Estudos etnográficos e ecológicos desenvolvidos por Amado (1998) e por Freire (2001) nos últimos três anos nas escolas e em duas áreas distintas de Portugal (as cidades de Coimbra e de Lisboa), com alunos de idades compreendidas entre os 11 e os 15 anos, mostraram que a violência entre alunos e professores é praticamente ausente. No entanto, cerca de 10% dos alunos vêem-se envolvidos em situações de violência entre colegas com carácter sistemático (vítimas e agressores), sendo este um fenómeno essencialmente masculino. Os autores observaram que apenas um pequeno grupo de alunos se confronta com situações agressivas na escola. Na sala de aula estas situações ocorrem apenas em contextos específicos e com determinados professores (liderança permissiva, elevado absentismo do professor, cultura de escola caracterizada pela desresponsabilização geral). A mais típica forma de violência na escola é a agressão verbal, que se manifesta, a maior parte das vezes, de forma ocasional, ou seja, raras vezes tem um carácter de agressão sistemática da mesma pessoa.
Causas
No que se refere à forma específica de violência designada por "maltrato entre iguais" (ou bullying), as principais causas parecem ser psicológicas. Geralmente, tanto as vítimas como os agressores manifestam baixa auto-estima e têm um fraco poder de influência nas relações interpessoais com os pares. As vítimas, normalmente, não têm amigos, apresentam uma aparência física mais frágil do que a dos seus pares e são muito protegidos pelos pais (principalmente pelas mães). Normalmente, os pais dos agressores e das vítimas não estão ao corrente da situação e isto torna esta mesma situação mais problemática.
Convém também fazer referência a outros tipos de violência que afectam a escola, como seja os grupos organizados ou gangs; nestes casos, as causas parece estarem, normalmente, associadas a problemas económicos, sociais e étnicos, como, famílias disfuncionais e destruturadas, pobreza, racismo ou outros tipos de discriminação sistemática, e modelos sociais violentos propagados pelos media.
Alguns investigadores têm salientado o impacto da cultura e clima de escola e outros aspectos associados com a sua estrutura e dinâmica interna, que contribuem para a redução ou aumento da violência. Em Portugal tem-se verificado o desenvolvimento de programas de intervenção na escola que adoptaram esta perspectiva no combate à violência (intervenção nos recreios, desenvolvimento da relação escola-comunidade-família, por exemplo). A investigação mostra que a violência na escola (quer seja sistemática ou ocasional) é um fenómeno de carácter multifactorial, com diferentes expressões e múltiplas causas, em cuja prevenção a escola tem um poderoso impacto.
Literatura e links
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Comunicacionais para Professores e Pais. Coimbra: Livraria Almedina.
