quarta-feira, 8 de outubro de 2008
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Método contra 'bullying' com sucesso em Espanha

Conferência. Encontro Mundial sobre violência na escola junta hoje em Lisboa os principais especialistas na matéria. País vizinho diz ter encontrado programa que resulta, mas por cá nem pais, nem professores, nem investigadores conhecem ainda o projecto, que já atrai a atenção de outros países
Alunos identificam colegas na Net de forma anónima
Uma equipa de investigadores da Universidade Complutense de Madrid (UCM) desenvolveu um método para combater o bullying , que diz ter tido sucesso nas escolas espanholas. Os resultados do método - que passa pela aplicação de um programa informático em que os alunos identificam de forma anónima os colegas que gostam ou não - foram apresentados ontem no El Mundo, na véspera do arranque, em Lisboa, da 4ª Conferência Mundial sobre "Violência na Escola e Políticas Públicas", onde o fenómeno vai estar em destaque. Um projecto que já recebeu o acolhimento de países como a Suécia e a Finlândia mas que é ainda desconhecido pelas associações de pais e professores portuguesas e pelo Observatório da Segurança Escolar.A pensar no medo da vítima em denunciar um colega (uma das principais dificuldades em detectar o bullying), a equipa da UCM lançou, em 2004, um programa informático que identifica as vítimas e os agressores de forma anónima. É ainda um modo de detectar o fenómeno precocemente e evitar que as agressões (físicas e psicológicas) se prolonguem e deixem feridas incuráveis.O programa espanhol baseia-se numa ferramenta informática que disponibiliza as fotografias de todos os alunos de uma turma, questionando-os individualmente: "Com quem gostas de brincar?" e "Quem é que te incomoda mais?", são exemplos de perguntas a que os estudantes respondem, clicando em cima da fotografia do colega correspondente. "É muito mais simples e eficaz do que escrever ou falar sobre o assunto. Os jovens respondem com mais liberdade e sem se sentirem coagidos", afirmou o "pai" do método, Martín Babarro.A ideia é levar os colegas a apoiar as potenciais vítimas e trabalhar com os agressores. A experiência começou no colégio madrileno Salvador Allende, que frisa o sucesso da iniciativa. Além do alargamento a toda a Espanha, também a Finlândia e a Suécia foram a este país ver de perto o programa.Pode ser aplicado em PortugalPor cá, ainda ninguém ouviu falar deste projecto, apesar de já ter cinco anos e da interligação entre as associações portuguesas e espanholas. O presidente da Associação Nacional de Professores (ANP), João Grancho, admite que "tudo o que se faz pode servir de inspiração e pode vir a ser aplicado em Portugal". Também Albino Almeida, presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), fala ao DN da possibilidade do programa "servir como modelo de inspiração para aplicar nas escolas portuguesas". Até porque, "as boas ideias como esta não deixarão de ser adaptadas à realidade nacional". No entanto, disse, "todas as medidas aplicadas actualmente em Portugal são adequadas, como a tutoria entre os pares, em que os alunos menos problemáticos acompanham os mais problemáticos e os mais velhos apoiam os mais novos". Estas "brigadas de intervenção têm-se revelado muito eficazes", concorda Albino Almeida.O psiquiatra e membro do Observatório da Segurança Escolar Daniel Sampaio contesta a solução espanhola. O "problema do bullying não se resolve com um programa informático, que só pode funcionar se for integrado num método geral de combate ao fenómeno". "É necessário trabalhar com as famílias, os alunos, os auxiliares da educação e os professores", defende.Outro ponto fundamental para o especialista é o conhecimento da vítima. "Não se pode pensar no 'bullying' sem tratar a vítima". Já que "o próprio comportamento das vítimas (vergonha, inibição, minoria étnica ou sexual) pode incentivar esta prática", denuncia. Até porque, "não se pode pensar só no menino mau que é o agressor e no menino bom que é a vítima. O agressor pode mesmo ser promovido no grupo de amigos e os seus actos entendidos como positivos". Por isso, o médico considera que "o bullying é muito mais complexo" do que a abordagem do programa espanhol.O DN tentou, sem sucesso, contactar o Ministério da Educação para obter um comentário sobre a possível aplicação no País.
Eric Debarbieux: “Os professores não são treinados para agir em caso de violência”
22.06.2008 - 19h57 Bárbara Wong
A violência não está a aumentar, diz Eric Debarbieux, professor de Ciências da Educação da Universidade de Bordéus, em França. Mas é preciso agir, não com medidas repressivas, mas pensadas a longo prazo. É presidente do Observatório Internacional da Violência Escolar, uma organização não governamental “científica”, uma “federação de investigadores” de 52 países, que faz estudos e recomendações aos Governos. A quarta conferência internacional decorre entre amanhã e quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.Qual é o grau de influência do Observatório Internacional da Violência Escolar nas políticas dos países?O nosso objectivo é ter influência, dizer o que está certo e errados nas políticas públicas. Por exemplo, sabemos que o melhor caminho não é ter políticas de repressão nas escolas e dizemos isso. O que não significa que sejamos ouvidos pelos políticos. A violência na escola é um tópico inconveniente que é recorrentemente recuperado pelos média e pelos políticos, que exageram sobre as suas causas e os seus efeitos. Contudo, a investigação mostra que a violência na escola não está a aumentar. Não está a aumentar?Vou dar um exemplo: Recentemente um país africano pediu-nos para fazermos um estudo. O observatório concluiu que o problema era as crianças não irem à escola, sobretudo as raparigas e recomendamos que o investimento devia ser feito na sua educação. É claro que não ficaram satisfeitos. A razão científica nem sempre é palavra de acção, mas é essa a nossa função.A violência escolar vai da agressão verbal aos massacres nas escolas? Os tiroteios não são um problema real. Nos EUA, os estudos dizem que o risco de um aluno ser vítima de um tiroteio é de um para um milhão, no entanto, 80 por cento dos estudantes tem medo de ser vítima. O verdadeiro problema é a violência continuada e repetida, a que chamamos bullying, sobre alunos, mas também sobre professores. Por vezes, pensa-se que não é importante, que é uma coisa pequena, mas sabemos que as consequências são muito graves para as suas vítimas. Há pesquisa que mostra que uma vítima de bullying pode tentar o suicídio mais quatro vezes do que alguém que nunca sofreu bullying na escola. É contra esta pequena violência que temos de lutar.É diferente de país para país?Há países onde há problemas graves de violência escolar. Em África, no Burkina Faso, 37 por cento das raparigas já foram vítimas de abusos sexuais por parte dos professores. Outro problema são os castigos corporais, nos EUA há 18 estados onde ainda são permitidos. Sabemos que as consequências podem ser nefastas. Por exemplo, grande parte dos tiroteios dentro de escolas é nesses estados onde os professores podem bater nos alunos. Disse que a violência escolar não está a aumentar, mas são tornados públicos cada vez mais casos. Porquê?Em França, a média do número de alunos vítimas de bullying não está a aumentar, mas se observarmos as escolas dos subúrbios, de zonas mais frágeis em termos sócio-económicos, a violência escolar está a crescer. Na Europa, a violência na escola está ligada à exclusão social e é um assunto que a democracia deve combater. Mas não é assim em todos os países.Quer dizer que a violência pode não estar ligada à exclusão?Em muitos países pobres africanos e da América Latina a violência escolar não é um problema porque a comunidade protege a escola. Para ela, a escola é um capital social, é uma oportunidade para sair da pobreza, enquanto noutros países, na Europa e EUA, a escola é vista como um inimigo. No Brasil, nas favelas onde não há saneamento, a escola é o único bem e os professores têm até 80 alunos na sala de aula e não há problemas de violência.Significa que depende do contexto onde a escola se encontra?É o que vamos discutir neste congresso: A violência em contexto. Como é que o contexto pode fazer parte da solução? Sabemos que há dezenas de milhares de alunos, em todo o mundo, que odeiam o clima escolar.Porque a escola continua a ser igual desde a revolução industrial e recebe públicos para os quais diz não estar preparada?Os professores não são preparados para intervir. Por exemplo, uma hospedeira é treinada para reconhecer o stress de um passageiro, um quadro bancário para a gestão e dinâmica de grupo, e os professores não. Em termos políticos, é uma prioridade repensar a formação. A maneira como se gerem os conflitos é muito importante, há necessidade de formar os professores também para trabalhar em equipa. Se não houver esse trabalho de equipa, a porta da escola está aberta para entrar a cultura de violência. Não podemos mudar a família ou a sociedade, mas podemos mudar a maneira como se trabalha na escola. A pedagogia pode contribuir para a solução.Os alunos precisam de gostar da escola?O sentimento de pertença à escola é uma das chaves. Se um professor ou um aluno está isolado, corre maior risco de ser vítima de violência. Por isso, é preciso apostar na boa convivência escolar. É uma necessidade criminológica para nos proteger da violência escolar, porque os agressores não são corajosos, são jovens que atacam e roubam os da mesma classe social. Se há uma equipa a funcionar na escola, as agressões podem reduzir-se.E as câmaras de vídeo ou a polícia à porta da escola?Há escolas com os portões fechados e videovigilância. São meios que podem tornar-se perigosos porque os alunos interpretam que a escola os quer vigiar e controlar, bem como aos amigos e à família. O desafio é evitar a violência de exclusão, ou seja, aquela que é feita fora da escola contra a polícia, os transportes públicos, os bombeiros, porque essa é mais difícil de controlar. As escolas devem criar regras claras contra o bullying. Quais devem ser as responsabilidades dos governos?Formar professores para saberem gerir conflitos. Tomar medidas de apoio às vítimas, mas também de apoio aos agressores. Não basta agitar o cassetete, os Governos devem dar uma resposta que não seja dura e imediata, mas de longo prazo. Os governantes sentem um enorme fascínio pela repressão da violência extrema e isso deve-se à pressão mediática. Não há imagens da pequena violência, diária e repetida; mas há das consequências de um tiroteio num liceu norte-americano, que passam repetidamente na televisão. As políticas públicas devem dirigir-se à pequena violência.
Origens e causas da violência escolar
O que está na origem da violência escolar?
Não há uma causa, mas muitas que estão ligadas. A escola, a família, a comunidade... Sabemos que se os pais forem muito disciplinadores, que inflijam castigos corporais, pode haver mais violência; mas o contrário também pode dar origem a violência, ou seja, se os pais não exercerem qualquer controlo. O modo como se educa pode ser uma das explicações, mas não é a única. Não se pode falar de determinismo.
Há novas formas de violência escolar?
O cyberbullying é um problema novo, ainda não há dados quantitativos, mas muitos inquéritos revelam que há um aumento. É o mesmo problema que o bullying, o meio usado é que é diferente.
Quem são as vítimas?
São os alunos, sobretudo rapazes, vítimas de violência física; há menos vítimas do sexo feminino e a forma de violência exercida é condená-las ao ostracismo. Não posso dizer que seja pior, porque a violência física é acompanhada de violência verbal. As consequências são muito importantes: o absentismo, maus resultados escolares, falta de auto-estima, por vezes, sentimentos de culpa.
No futuro, as vítimas podem tornar-se agressoras?
A maior parte das vítimas não se tornam agressoras. Mas acontece. O risco é que reproduzam esses comportamentos com os seus próprios filhos. Sabemos que 80 por cento dos casos dos autores de massacres nos EUA foram vítimas de bullying.
A violência não está a aumentar, diz Eric Debarbieux, professor de Ciências da Educação da Universidade de Bordéus, em França. Mas é preciso agir, não com medidas repressivas, mas pensadas a longo prazo. É presidente do Observatório Internacional da Violência Escolar, uma organização não governamental “científica”, uma “federação de investigadores” de 52 países, que faz estudos e recomendações aos Governos. A quarta conferência internacional decorre entre amanhã e quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.Qual é o grau de influência do Observatório Internacional da Violência Escolar nas políticas dos países?O nosso objectivo é ter influência, dizer o que está certo e errados nas políticas públicas. Por exemplo, sabemos que o melhor caminho não é ter políticas de repressão nas escolas e dizemos isso. O que não significa que sejamos ouvidos pelos políticos. A violência na escola é um tópico inconveniente que é recorrentemente recuperado pelos média e pelos políticos, que exageram sobre as suas causas e os seus efeitos. Contudo, a investigação mostra que a violência na escola não está a aumentar. Não está a aumentar?Vou dar um exemplo: Recentemente um país africano pediu-nos para fazermos um estudo. O observatório concluiu que o problema era as crianças não irem à escola, sobretudo as raparigas e recomendamos que o investimento devia ser feito na sua educação. É claro que não ficaram satisfeitos. A razão científica nem sempre é palavra de acção, mas é essa a nossa função.A violência escolar vai da agressão verbal aos massacres nas escolas? Os tiroteios não são um problema real. Nos EUA, os estudos dizem que o risco de um aluno ser vítima de um tiroteio é de um para um milhão, no entanto, 80 por cento dos estudantes tem medo de ser vítima. O verdadeiro problema é a violência continuada e repetida, a que chamamos bullying, sobre alunos, mas também sobre professores. Por vezes, pensa-se que não é importante, que é uma coisa pequena, mas sabemos que as consequências são muito graves para as suas vítimas. Há pesquisa que mostra que uma vítima de bullying pode tentar o suicídio mais quatro vezes do que alguém que nunca sofreu bullying na escola. É contra esta pequena violência que temos de lutar.É diferente de país para país?Há países onde há problemas graves de violência escolar. Em África, no Burkina Faso, 37 por cento das raparigas já foram vítimas de abusos sexuais por parte dos professores. Outro problema são os castigos corporais, nos EUA há 18 estados onde ainda são permitidos. Sabemos que as consequências podem ser nefastas. Por exemplo, grande parte dos tiroteios dentro de escolas é nesses estados onde os professores podem bater nos alunos. Disse que a violência escolar não está a aumentar, mas são tornados públicos cada vez mais casos. Porquê?Em França, a média do número de alunos vítimas de bullying não está a aumentar, mas se observarmos as escolas dos subúrbios, de zonas mais frágeis em termos sócio-económicos, a violência escolar está a crescer. Na Europa, a violência na escola está ligada à exclusão social e é um assunto que a democracia deve combater. Mas não é assim em todos os países.Quer dizer que a violência pode não estar ligada à exclusão?Em muitos países pobres africanos e da América Latina a violência escolar não é um problema porque a comunidade protege a escola. Para ela, a escola é um capital social, é uma oportunidade para sair da pobreza, enquanto noutros países, na Europa e EUA, a escola é vista como um inimigo. No Brasil, nas favelas onde não há saneamento, a escola é o único bem e os professores têm até 80 alunos na sala de aula e não há problemas de violência.Significa que depende do contexto onde a escola se encontra?É o que vamos discutir neste congresso: A violência em contexto. Como é que o contexto pode fazer parte da solução? Sabemos que há dezenas de milhares de alunos, em todo o mundo, que odeiam o clima escolar.Porque a escola continua a ser igual desde a revolução industrial e recebe públicos para os quais diz não estar preparada?Os professores não são preparados para intervir. Por exemplo, uma hospedeira é treinada para reconhecer o stress de um passageiro, um quadro bancário para a gestão e dinâmica de grupo, e os professores não. Em termos políticos, é uma prioridade repensar a formação. A maneira como se gerem os conflitos é muito importante, há necessidade de formar os professores também para trabalhar em equipa. Se não houver esse trabalho de equipa, a porta da escola está aberta para entrar a cultura de violência. Não podemos mudar a família ou a sociedade, mas podemos mudar a maneira como se trabalha na escola. A pedagogia pode contribuir para a solução.Os alunos precisam de gostar da escola?O sentimento de pertença à escola é uma das chaves. Se um professor ou um aluno está isolado, corre maior risco de ser vítima de violência. Por isso, é preciso apostar na boa convivência escolar. É uma necessidade criminológica para nos proteger da violência escolar, porque os agressores não são corajosos, são jovens que atacam e roubam os da mesma classe social. Se há uma equipa a funcionar na escola, as agressões podem reduzir-se.E as câmaras de vídeo ou a polícia à porta da escola?Há escolas com os portões fechados e videovigilância. São meios que podem tornar-se perigosos porque os alunos interpretam que a escola os quer vigiar e controlar, bem como aos amigos e à família. O desafio é evitar a violência de exclusão, ou seja, aquela que é feita fora da escola contra a polícia, os transportes públicos, os bombeiros, porque essa é mais difícil de controlar. As escolas devem criar regras claras contra o bullying. Quais devem ser as responsabilidades dos governos?Formar professores para saberem gerir conflitos. Tomar medidas de apoio às vítimas, mas também de apoio aos agressores. Não basta agitar o cassetete, os Governos devem dar uma resposta que não seja dura e imediata, mas de longo prazo. Os governantes sentem um enorme fascínio pela repressão da violência extrema e isso deve-se à pressão mediática. Não há imagens da pequena violência, diária e repetida; mas há das consequências de um tiroteio num liceu norte-americano, que passam repetidamente na televisão. As políticas públicas devem dirigir-se à pequena violência.
Origens e causas da violência escolar
O que está na origem da violência escolar?
Não há uma causa, mas muitas que estão ligadas. A escola, a família, a comunidade... Sabemos que se os pais forem muito disciplinadores, que inflijam castigos corporais, pode haver mais violência; mas o contrário também pode dar origem a violência, ou seja, se os pais não exercerem qualquer controlo. O modo como se educa pode ser uma das explicações, mas não é a única. Não se pode falar de determinismo.
Há novas formas de violência escolar?
O cyberbullying é um problema novo, ainda não há dados quantitativos, mas muitos inquéritos revelam que há um aumento. É o mesmo problema que o bullying, o meio usado é que é diferente.
Quem são as vítimas?
São os alunos, sobretudo rapazes, vítimas de violência física; há menos vítimas do sexo feminino e a forma de violência exercida é condená-las ao ostracismo. Não posso dizer que seja pior, porque a violência física é acompanhada de violência verbal. As consequências são muito importantes: o absentismo, maus resultados escolares, falta de auto-estima, por vezes, sentimentos de culpa.
No futuro, as vítimas podem tornar-se agressoras?
A maior parte das vítimas não se tornam agressoras. Mas acontece. O risco é que reproduzam esses comportamentos com os seus próprios filhos. Sabemos que 80 por cento dos casos dos autores de massacres nos EUA foram vítimas de bullying.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
PGR acusa ministra de minimizar violência nas escolas
O Procurador-Geral da República (PGR), Pinto Monteiro, acusa a ministra da Educação de «minimizar a dimensão da violência nas escolas», numa entrevista à revista Visão que será publicada quinta-feira.
Na entrevista, o responsável afirma ter seleccionado a violência escolar como uma das suas prioridades, no âmbito da nova Lei de Política Criminal.
«Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe», refere Pinto Monteiro.
O PGR garante mesmo que vai preocupar-se com «cada caso de um miúdo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro», por não querer que haja «um sentimento de impunidade» nas escolas, nem que «esse miúdo se torne um ídolo para os colegas».
«Quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero. Mesmo que seja um miúdo de 13 anos, há medidas de admoestação a tomar. Se soubessem a quantidade de faxes que eu recebo de professores a relatarem agressões...», adianta Pinto Monteiro.
Segundo dados do Observatório da Segurança Escolar divulgados em Março no Parlamento, no passado ano lectivo foram contabilizadas 390 agressões a professores nas escolas e arredores, o que dá uma média diária superior a dois casos, tendo em conta que há 180 dias de aulas por ano.
No final de Outubro, a Procuradoria-Geral da República anunciou que iria emitir uma directiva ao Ministério Público para fazer a recolha de dados sobre violência escolar, «começando pela participação de todos os ilícitos que ocorram nas escolas».
No início deste mês, em entrevista à RTP1, a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, considerou «exageradas» as preocupações do Procurador-Geral da República sobre violência nos estabelecimentos de ensino.
«O PGR fez eco da sua preocupação, mas não há motivos para isso porque a violência escolar é uma situação rara e não está impune. O que existem é situações de indisciplina e incivilidade», sustentou, na altura, a ministra da Educação, adiantando que não queria que fossem criminalizados «actos que têm características específicas porque acontecem no meio escolar».
Contactado pela Lusa, o Ministério da Educação não quis comentar as declarações de Pinto Monteiro.
Diário Digital / Lusa
21-11-2007 19:29:00
Na entrevista, o responsável afirma ter seleccionado a violência escolar como uma das suas prioridades, no âmbito da nova Lei de Política Criminal.
«Sei que há várias pessoas, até a senhora ministra da Educação, que minimizam a dimensão da violência nas escolas, mas ela existe», refere Pinto Monteiro.
O PGR garante mesmo que vai preocupar-se com «cada caso de um miúdo que dê um pontapé num professor ou lhe risque o carro», por não querer que haja «um sentimento de impunidade» nas escolas, nem que «esse miúdo se torne um ídolo para os colegas».
«Quanto à escola, ao nível penal, deve existir tolerância zero. Mesmo que seja um miúdo de 13 anos, há medidas de admoestação a tomar. Se soubessem a quantidade de faxes que eu recebo de professores a relatarem agressões...», adianta Pinto Monteiro.
Segundo dados do Observatório da Segurança Escolar divulgados em Março no Parlamento, no passado ano lectivo foram contabilizadas 390 agressões a professores nas escolas e arredores, o que dá uma média diária superior a dois casos, tendo em conta que há 180 dias de aulas por ano.
No final de Outubro, a Procuradoria-Geral da República anunciou que iria emitir uma directiva ao Ministério Público para fazer a recolha de dados sobre violência escolar, «começando pela participação de todos os ilícitos que ocorram nas escolas».
No início deste mês, em entrevista à RTP1, a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, considerou «exageradas» as preocupações do Procurador-Geral da República sobre violência nos estabelecimentos de ensino.
«O PGR fez eco da sua preocupação, mas não há motivos para isso porque a violência escolar é uma situação rara e não está impune. O que existem é situações de indisciplina e incivilidade», sustentou, na altura, a ministra da Educação, adiantando que não queria que fossem criminalizados «actos que têm características específicas porque acontecem no meio escolar».
Contactado pela Lusa, o Ministério da Educação não quis comentar as declarações de Pinto Monteiro.
Diário Digital / Lusa
21-11-2007 19:29:00
domingo, 11 de novembro de 2007
CDS-PP propõe observatório para a violência e qualificação de crimes
O CDS-PP vai propor, esta quarta-feira, no Parlamento a institucionalização de um observatório para a violência na escola. Outra das propostas que os centristas vão apresentar tem a ver com a «qualificação» dos crimes aí cometidos.
( 09:52 / 31 de Outubro 07 )
O CDS-PP defende a institucionalização por via de lei de um observatório para a violência na escola, um órgão não transitório e que deve ter a participação de elementos ligados à polícia, não devendo assim depender só do Ministério da Educação.Os centristas justificaram a necessidade da proposta que farão esta quarta-feira na Assembleia da República após a ministra da Educação ter desvalorizado a prioridade do Procurador-geral da República relativamente a este assunto, algo que deixou «indignado» o deputado Diogo Feio.Em declarações à agência Lusa, o parlamentar acusou Maria de Lurdes Rodrigues de estar a «perder a noção da realidade» e aconselhou a ministra a «estar mais atenta ao que se passa no país».«O procurador-geral fez sérios avisos em relação ao que se passa nas escolas e a ministra respondeu que estávamos perante 'casos menores', que o número de participações não era tão grande assim e que havia coisas mais graves com que nos preocupar», afirmou Diogo Feio.O deputado considerou ainda que as declarações da titular da pasta da Educação mostram um «irrealismo total» e frisou que o seu partido se preocupa com a «defesa da escola, dos professores, alunos e famílias».Outra das propostas que será apresentada esta quarta-feira pelo CDS-PP tem a ver com o «agravamento» dos crimes cometidos nas escolas «sejam eles crimes de agressão ou outros crimes», que deverão ter uma «pena mais pesada».
Violência na escola
Na escola onde lecciono tenho reparado num problema que progressivamente se vem agravando entre os alunos. São notórias as situações de violência entre a crianças. Manifestações de revolta, desinteresse, baixa auto-estima e insegurança que se reflectem, com muita frequência, na agressão física.
Questiono-me como gerir situações sobre as quais tenho plena consciência que são reflexo, maioritariamente, das disfunções que aquelas crianças são vítimas fora da escola. Como fazer? Aplicar um castigo severo? Mais uma violência a somar a todas as outras...?
Noto que mesmo utilizando a calma alguns dos meus alunos não sabem ser diferentes porque nasceram no seio da violência. São crianças com auto-estima muito baixa. Facilmente acreditam que são culpadas das situações, embora não o assumam, numa tentativa que as atenções de repreensão não recaiam sobre eles. Não se sentem amadas e utilizam a agressão física como substituta das palavras, que muitas vezes não conhecem, para se defender.
É preciso que a família ensine as crianças a resolver os conflitos, e as frustrações inerentes, de forma não violenta. Claro que na escola o professor dará continuidade a esse trabalho. É necessário que as crianças sejam preparadas para os obstáculos que podem surgir numa relação, para os sentimentos e emoções. Sinto é a dificuldade de chegar àqueles que parecem já estar à margem. Que não têm um início trabalhado, supostamente pela família, para poder dar continuidade.
Nos dois últimos grandes conflitos que ocorreram senti necessidade de parar a aula, a matéria, fechar os livros e os cadernos.
Existiram cadeiras no ar, mesas viradas, arranhões, pontapés, muito choro e muitos gritos. Tudo causado por uma resposta menos própria, dada por uma aluna, numa conversa “parasita”.
Do recreio chegam-me também com muitas queixas uns dos outros. Ocorrem cenários de grande conflito nos quais tem que existir a intervenção do adulto.
A última grande conversa que tivemos durou 2h. Não posso pensar que estou a perder tempo, pois tenho matéria para dar. Sinto que esta é a única forma de ganhar tempo com eles.
Existe um “contrato” nas nossas conversas: cada um só pode falar de si próprio, nunca fazer queixas dos outros.
Nestas alturas acabam sempre por referir os conflitos que vivem em casa. Apercebo-me assim dos castigos e da pancada que frequentemente são alvo, da ausência de palavras a que estão habituados.
Curiosamente acabei por ouvir os meus alunos falarem do que é a solidão e como se sentem com ela. Alguns disseram que acordam tristes todos os dias porque parece que não têm amigos; ninguém para conversar.
Apercebo-me também do modo como muitas vezes os assuntos são resolvidos em casa:
- Se a professora não disser aquilo que quero ouvir, em casa, vou-te encher de tareia!... – gritou o encarregado de educação de um aluno, antes de entrar na sala de aula para receber a avaliação do 2.º período.
Por onde passa a solução para situações quotidianas destas? Só se pode apelar à paciência da professora? Onde está o tempo para uma atenção mais individualizada?
Depois de conversarmos sinto-os mais calmos, só que algumas vezes só até ao dia seguinte...
Teresa Filipa Sequeira
João Amado: "Escolas estão pouco aptas a lidar com violência e indisciplina"
A maioria dos professores lida mal com este tipo de situações e quase sempre de forma isolada. Por sua vez, as escolas acusam falta de liderança, não organizando sistemas internos de ajuda mútua.
De acordo com João Amado, professor universitário e co-autor, com Isabel Freire, de "Indisciplina e Violência na Escola - Compreender para Prevenir", é importante que desde cedo se instituam normas claras de conduta na escola e na aula. No entanto, "firmeza" não deve ser confundida com "castigo". EDUCARE.PT: A que se devem, regra geral, os casos de violência e indisciplina em meio escolar? João Amado: É uma pergunta simples para uma resposta difícil de dar, devido à complexidade da questão em causa. O que se pode dizer é que os factores são múltiplos e fortemente associados entre si. Podemos falar de factores de ordem social, familiar, escolar (organizacionais e pedagógicos) e individuais, cujo peso relativo só se pode avaliar verdadeiramente tendo em conta cada caso per si .E.: Como caracteriza a incidência desses casos, por grau de ensino e idade? JA: Diria que a investigação tem revelado um peso muito grande das variáveis graus de ensino e idade. O 2.º ciclo e, muito especialmente, o 7.º e o 8.º anos são, na maior parte dos estudos, anos de grande incidência.E.: São fenómenos que também estão ligados à origem social e ao grau de instrução dos progenitores desses alunos? JA: Estudos vários revelam a enorme importância de factores sociais e culturais. Sabemos que os hábitos, a linguagem, as exigências, enfim, a socialização que experimentam as crianças de famílias cultural e socialmente desfavorecidas pouco ou nada têm a ver com o que na escola se lhes oferece e vai exigir. Há escolas hoje frequentadas por crianças e jovens maioritariamente providas desses meios, o que constitui um enorme desafio a todos quantos nelas trabalham, e que só se vence por uma maior autonomia no mais diversos planos e por uma formação dos agentes educativos que os torne aptos a lidar com tais situações e a dialogar com a cultura do aluno.E.: Os casos de violência acontecem mais entre-pares ou entre aluno e professor? JA: Os números neste tipo de questões são sempre muito dependentes dos métodos e dos instrumentos usados. Mas há estudos que apontam para uma alta taxa de agressividade entre pares, das brincadeiras rudes ao bullying . Este estrangeirismo traduz-se, na prática, em agressões persistentes, continuadas, de carácter psíquico (sobretudo exclusão do grupo) e físico, de um aluno ou grupo de alunos sobre outro aluno vítima e incapaz de se defender por si mesmo. Actos que hoje começam a prolongar-se para lá da escola, com a utilização dos recentes meios de comunicação: Internet, telemóveis com câmara fotográfica, etc. Acrescente-se, no entanto, que a investigação nacional e internacional tem revelado que nas escolas onde os problemas entre alunos são mais frequentes e mais graves também são mais frequentes e mais graves os problemas de indisciplina e de violência contra os professores. Está tudo associado e altamente dependente, entre outras coisas, do clima que os líderes, responsáveis pela organização, e todos os implicados no quotidiano da escola são capazes de criar e de estabelecer.E.: Qual o perfil do aluno agressor? JA: Embora não se possa estabelecer um perfil generalizado, porque cada caso é um caso, é fundamental que se estabeleçam esses perfis em ordem a melhor prevenir as situações, diagnosticar problemas e fazer formação. Poderíamos dizer que, em traços gerais, a investigação tem mostrado que os agressores, desde muito cedo, têm uma enorme necessidade de dominar e vencer, são pouco tolerantes à frustração, são agressivos, falam muito de si como vencedores, desprezam os mais fracos...É possível estabelecer, também, um perfil do aluno vítima? Podemos dizer que esses alunos demonstram muita insegurança e ansiedade, aparentam angústia e infelicidade... Quando estão sob o efeito directo de actos de vitimação, alteram muito o seu comportamento na escola e em casa, tornando-se também agressivos sobretudo para com os mais novos, isolando-se e tendo reacções psicossomáticas como enurese. É importante a atenção dos pais a estes sinais. Muitos dos acontecimentos mais graves nas escolas surgiram, precisamente como "resposta" dos alunos vítimas!(continua)(2.ª parte) E.: Regra geral, como lidam os professores com essas situações? JA: Muito mal e sozinhos. Alguns inibem-se de falar das suas dificuldades neste campo, e a liderança das escolas geralmente - há excepções - não é pro-activa neste sentido, isto é, não organiza sistemas internos de ajuda mútua, que também seriam espaços de formação e incubadoras de projectos de intervenção ao nível da escola. Este envolvimento de toda a escola na tentativa de resolução dos problemas é muito importante a todos os níveis, até para prevenir o stress dos professores. E.: Até que ponto os professores - e também os auxiliares da acção educativa - estão preparados e têm formação para lidar com estas situações? JA: A preparação ao nível das escolas de formação inicial é mínima e, quase inevitavelmente, teórica. A formação contínua tem, também, em geral as falhas que lhe conhecemos: pouco sistemática e sem continuidade, virada para a obtenção de créditos, teórica... Aproveita pouco as situações reais: os casos, os projectos com e sem êxito, etc. para delas se aprender na troca de ideias e informações. A minha impressão a este propósito é bastante negativa. É negativa também quanto à formação dos auxiliares educativos.E.: De que modo é que a existência de casos de violência e indisciplina tem interferência no sucesso escolar da turma? JA: Eu diria que é o insucesso educativo que interfere em muito no insucesso escolar do aluno e da turma. Poderíamos falar, inclusive, de uma certa circularidade: o insucesso educativo interfere no insucesso escolar e vice-versa. A investigação tem mostrado que muitos - a maioria - dos problemas de indisciplina e de violência na escola envolvem alunos com insucesso escolar. As explicações para o facto são muitas. No que respeita à turma, são óbvias também as repercussões, porque aqueles comportamentos criam um clima de instabilidade e de ansiedade incompatível com a atenção e com o empenhamento necessário numa aula.E.: Expulsar um aluno que dá problemas da sala de aula ou suspendê-lo durante alguns dias é uma das formas possíveis de resolver a questão? JA: Estas medidas, só em casos muito excepcionais, dão um resultado positivo e persistente. Na maioria dos casos têm um efeito pontual, circunstancial; geralmente agravam mais os problemas do que os resolvem. Certos alunos vêem a sujeição a essas medidas como motivo de orgulho e de satisfação.E.: É possível ao professor adoptar um comportamento preventivo desses casos? JA: Claro que é possível a prevenção por parte de um professor e de uma escola. A acção isolada de um professor é positiva mas muito limitada, e pode passar, desde o início do ano, por apontar para a existência de um clima, nas suas aulas, de exigência quanto ao cumprimento de determinadas regras. No entanto, os alunos devem perceber a necessidade e o interesse dessas regras, o que implica também um clima de diálogo que, a não existir, motiva reacções negativas, agressividade, etc. Se o clima de diálogo, com a turma, com o aluno-caso, é fundamental, não o é menos um conjunto de práticas ligadas às próprias tarefas de ensino, como criar condições para que os alunos aprendam uns com os outros - trabalhos de grupo, ensino cooperativo, gestão da turma servindo-se, inclusive, de meios como a Internet - e aprendam a conhecer-se mutuamente, através de assembleias de turma, saídas em conjunto, etc.E.: E como é que a escola no seu todo pode actuar? JA: Logo à partida, produzindo um regulamento por todos conhecido, que contemple as regras da convivência, e que explicite paralelamente os direitos e os deveres de cada um e de todos. Depois, promovendo e apoiando acções que continuem a acção dos professores na turma: clubes e projectos vários - até virados para um melhor conhecimento do meio social e patrimonial -, assembleias de escola, dinamização da presença e intervenção dos encarregados de educação, gabinete de apoio aos alunos, um clima de ajuda entre professores, enfim, uma liderança capaz de empenhar toda a gente na construção de um ambiente saudável e seguro.E.: Deveria a acção dos órgãos de gestão das escolas ser mais firme nos casos de violência e indisciplina? JA: A firmeza assente na existência de normas e de regras é sempre necessária, indispensável; as regras e as normas são indispensáveis à vida numa organização. A firmeza, contudo, não significa ameaça e castigo. Antes de se chegar a esse ponto há todo um trabalho preventivo a fazer, como já disse. O castigo só deve ter lugar quando todos os outros meios se esgotaram. Firmeza sim e sempre, mas também compreensão profunda de cada situação, conhecimento de quem nela interveio e certeza de que o procedimento escolhido é o melhor para a educação do visado.(continua)(3.ª parte)E.: Os alunos violentos ou indisciplinados são automaticamente rotulados pelas escolas e postos de parte ou, pelo contrário, costuma haver um esforço no sentido de os recuperar? JA: Há de tudo. Professores e escolas onde se faz tudo para se entender, compreender as causas, e levar a uma mudança de comportamento destes alunos; e escolas onde se cria uma divisão permanente, os "bons" de um lado, o lado dos professores, e os "maus" do outro, numa guerrilha permanente a ver quem vence. Quando não é o diálogo que impera, vence-se pela força. E aqui o aluno acaba por perder, ainda que aparentemente não seja assim, porque há as faltas, as notas, as reprovações, a exclusão da escola. Os alunos problemáticos, mesmo os violentos, são os que mais precisam da escola e de pelo menos um professor que os compreenda, o que não quer dizer que apoie os seus actos. E.: Ao longo dos tempos, a autoridade do professor dentro da sala de aula tem vindo a ser cada vez mais posta em causa. Que responsabilidade têm os pais dos alunos no enfraquecimento da figura do professor? JA: Sim, a autoridade do professor está cada vez mais dependente da sua capacidade de liderança na turma e da sua capacidade de participar com os outros na política da escola, o que reforça a importância das suas qualidades pessoais e da formação nesse sentido. Para que tudo corresse bem, seria necessário haver complementaridade entre um bom clima de turma e de escola e um bom clima familiar. A investigação tem mostrado, no entanto, que os problemas na turma e na escola estão fortemente associados a problemas no seio da família. Exige-se (e bem) a um professor que saiba construir um ambiente de regras e de autoridade na sua turma. Mas tem de se compreender que isso é difícil se a turma é composta por alunos que vêm das suas próprias famílias sem regras e sem a referência de uma autoridade parental. Os professores podem fazer alguma coisa, mas não fazem milagres.E.: Existem outros responsáveis? JA: Claro. Os responsáveis pela falta de autonomia das escolas que lhes permita agir e ensinar em função da especificidade do seu público e que permita a existência de um corpo docente estável; os responsáveis pela inexistência de uma formação inicial e contínua de professores que os capacite para as exigências e desafios da Educação - não só, apenas, da instrução - num tempo de hoje; os responsáveis pela inexistência nas escolas de todo um conjunto de outros técnicos capazes de auxiliar a acção dos professores.E.: Qual o quadro da violência e indisciplina em meio escolar noutros países europeus? Qual é a postura dos professores e dos órgãos de gestão estrangeiros perante esses casos? JA: O problema noutros países é semelhante ao nosso. Há, porém, alguns desses países, a ajuizar pelas notícias e por alguma investigação, em que a situação é pior pelo número e pela gravidade dos problemas. Mas também há maior sensibilização por parte das autoridades, dos professores, das organizações não governamentais - muitas vezes da iniciativa dos encarregados de educação - para todos estes problemas, o que dá origem a todo um conjunto de iniciativas da sociedade civil que não vemos entre nós.PERFIL: João Amado é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A partir de 1976 inicia uma carreira como professor do Ensino Secundário. Em 1989, inicia funções docentes no Ensino Superior, após ter concluído o mestrado em Educação. Nove anos depois, obtém o grau de Doutor em Ciências da Educação, conferido pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, onde é professor. É co-autor, com Isabel Freire, do livro "Indisciplina e Violência na Escola - Compreender para Prevenir", e tem realizado inúmeras acções de formação sobre a problemática da (in)disciplina.
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